Por Marco Severini — À sombra dos salões diplomáticos de Istambul, desenha-se uma tensão que pode redesenhar linhas de influência no Oriente Médio. Fontes militares e políticas de Israel advertiram, segundo reportagens da CNN e da agência Anadolu, que qualquer acordo entre Estados Unidos e Irã que deixe intacto o programa de mísseis balísticos de Teerã será considerado inaceitável — e que Tel Aviv está preparado para um ataque unilateral caso a questão seja postergada.
Esse ultimato não é retórica vazia, mas um movimento calculado no tabuleiro estratégico: para Jerusalém, o problema imediato não é apenas o potencial nuclear, mas sobretudo a capacidade do Irã de reconstruir e expandir um arsenal de longo alcance que representa uma ameaça direta à segurança israelense. Analistas militares locais recordam os danos sofridos pelas instalações iranianas na guerra de junho de 2025, mas alertam que a base industrial e tecnológica de Teerã permanece robusta o suficiente para uma rápida recuperação.
Na ótica de Israel, um acordo limitado ao controle de enriquecimento de urânio seria um paliativo — um congelamento que daria ao Irã tempo e espaço para fortalecer capacidades industriais e manter uma capacidade dissuasória ofensiva contra Tel Aviv. É essa percepção que transforma a mesa de negociações em Istambul num ponto de altíssimo risco: para os estrategistas israelenses, adiar a questão dos mísseis balísticos equivale a postergar uma guerra inevitável.
Nos bastidores, a chegada do enviado especial norte-americano Steve Witkoff a Israel, pouco antes das conversações em Istambul, teve um propósito claro — calibrar expectativas e testar a disposição norte-americana a aceitar um compromisso mais amplo. Jerusalém teme que Washington opte por um acordo pragmático e limitado, focado em mecanismos de verificação nuclear, relegando o dossier balístico a um estágio posterior.
As Forças de Defesa de Israel não minimizaram a ameaça: mantêm alto nível de alerta, aperfeiçoam planos de contingência e consideram seriamente opções para ação autônoma caso as negociações não contemplem o desmantelamento ou restrições significativas ao programa de mísseis iranianos. No vocabulário da Realpolitik, trata‑se de marcar uma linha vermelha — e, se necessário, cruzá‑la com decisão.
Do ponto de vista estratégico, a crise expõe os alicerces frágeis da diplomacia contemporânea, onde tratados parciais podem criar brechas para a corrida armamentista. A alternativa é um acordo abrangente que enfrente simultaneamente as dimensões nuclear e balística, ou aceitar o risco de uma operação isolada de Tel Aviv — um movimento que reconfiguraria, de forma rápida e imprevisível, a tectônica de poder regional.
Em suma, enquanto as delegações se preparam para sentar em torno da mesma mesa, o verdadeiro teste será se Washington conseguirá articular um compromisso que mantenha a estabilidade do tabuleiro estratégico sem provocar, ao mesmo tempo, o gatilho para uma ação unilateral cuja repercussão seria global.






















