Bruxelas — Em um relatório que devolve a União Europeia ao tabuleiro da realidade estratégica, a Corte de Contas Europeia conclui que ainda há “muito caminho a percorrer” para que a UE alcance a autonomia estratégica no abastecimento de matérias‑primas críticas, sobretudo as terras raras e metais essenciais à transição energética.
O documento, divulgado em 2 de fevereiro, é uma espécie de jogada de aviso: a diversificação de fornecedores “não está produzindo resultados tangíveis”, as “gargalos” continuam a travar a produção interna e o reciclagem permanece “em estado embrionário”. Mantido esse ritmo, os objetivos estabelecidos pela legislação europeia para 2030 tornar‑se‑ão um miragem — e, com eles, os compromissos climáticos e a recuperação da competitividade industrial do bloco.
É preciso lembrar que a transição para energias renováveis depende de baterias, turbinas eólicas e painéis solares, todos demandantes de minerais como lítio, níquel, cobalto, cobre e as terras raras. Atualmente, a maior parte desses insumos encontra‑se concentrada em poucos países terceiros — com destaque para a China, mas também Turquia, Chile e outros. Consciente dessa vulnerabilidade, a UE identificou 26 minerais como “críticos”, cuja segurança de abastecimento deveria estar assegurada até 2030.
“Sem matérias‑primas críticas não haverá transição energética, nem competitividade, nem autonomia estratégica”, afirmou Keit Pentus‑Rosimannus, membro da Corte de Contas Europeia responsável pela auditoria. Em termos práticos, existem três vias para mitigar a dependência: diversificação das importações, aumento da produção interna e intensificação do reciclagem.
Nos últimos cinco anos, a UE assinou 14 parcerias estratégicas sobre matérias‑primas críticas com países como Canadá, Chile, Namíbia, Zâmbia, Ucrânia, Argentina, Austrália, África do Sul, Noruega, Cazaquistão e Uzbequistão. Segundo o relatório, porém, esses esforços “ainda não renderam resultados palpáveis”: entre 2020 e 2024, as importações provenientes desses parceiros chegaram a diminuir para metade das matérias‑primas consideradas críticas.
Quanto ao reciclagem, a legislação europeia exige que ao menos 25% das matérias‑primas críticas em 2030 provenham de fontes recicladas. As perspectivas, contudo, “não são promissoras”: dados compilados até o fim de 2024 indicam que 7 dos 26 materiais têm taxas de reciclagem entre 1% e 5%, enquanto 10 não são reciclados de forma significativa. Ademais, muitos objetivos de reciclagem são genéricos, não rubricados a níveis por material, o que reduz o incentivo a recuperar os materiais mais complexos e custosos de processar.
No plano de produção doméstica, persistem obstáculos estruturais: regimes de licenciamento longos, limitações tecnológicas, custos ambientais e resistência local. Esses elementos formam um emaranhado de restrições que mais se assemelham a uma fortificação de difícil assalto do que a uma via viável para expansão rápida de extração responsável.
Como analista, vejo aqui um redesenho de fronteiras invisíveis entre segurança industrial e política externa: a UE precisa combinar diplomacia econômica, investimentos em cadeia de valor e reformas regulatórias para transformar intenções em capacidades reais. Trata‑se de mover peças num tabuleiro de xadrez onde cada aposta geoeconômica produz respostas estratégicas — por vezes de longa duração — dos fornecedores globais.
Se a União não consolidar rapidamente corredores de abastecimento confiáveis, simplificar e tornar previsíveis os processos de licenciamento e criar mecanismos financeiros para estimular o reciclagem de alto valor, corre‑se o risco de comprometer os alicerces da política climática e a recuperação industrial. A tectônica de poder global, por ora, mostra que a dependência de uma mão aparente se traduz em vulnerabilidade estratégica para todo o continente.
Em suma, o relatório da Corte de Contas é um chamado à ação: não se trata apenas de suprir mercados, mas de estruturar soberania tecnológica e industrial. A resposta europeia exigirá planejamento de longo prazo, recursos orçamentários e uma diplomacia robusta — movimentos que, se bem coordenados, podem reposicionar a UE numa postura de maior resiliência e influência.






















