ROMA, 03 de fevereiro de 2026 — Uma análise assinada por especialistas das University of Michigan, Duke University e Harvard University e publicada na revista Milbank Quarterly acende um alerta que ecoa como um vento frio sobre a paisagem do nosso cotidiano: os alimentos ultraprocessados não são apenas refeições rápidas ou convenientes, mas produtos cuidadosamente concebidos para maximizar o reforço biológico e psicológico e fomentar um consumo habitual que se assemelha, em muitos aspectos, ao comportamento provocado pelo tabaco.
Os pesquisadores descrevem esses produtos como “altamente engenheirados”: formulações industriais desenhadas para entregar experiências sensoriais potentes. Em vez de serem avaliados apenas pela sua composição nutricional, dizem os autores, esses alimentos merecem ser olhados pela lente da ciência das dependências. Assim como os cigarros, muitos itens ultraprocessados são projetados com precisão para estimular os circuitos de recompensa do cérebro, oferecendo a chamada “dose certa” de prazer que incentiva a repetição do consumo.
Além da engenharia sensorial, a comercialização desses produtos segue estratégias sofisticadas para amplificar a atração, contornar regulamentações e moldar a percepção pública. Em linguagem direta: as mesmas ferramentas que, no passado, foram usadas para sedimentar o consumo de tabaco — publicidade persuasiva, embalagens apelativas, posicionamento em pontos de venda e lobby regulatório — encontram hoje ecos no mercado alimentar industrializado.
Como alguém que observa as estações da vida e as relações entre ambiente e bem-estar, vejo nessa tendência a soma de dois fenômenos: uma paisagem urbana que respira pressa e uma indústria que colhe hábitos. Os autores do estudo sugerem que políticas públicas e estratégias de saúde deveriam incorporar essa perspectiva comportamental, reconhecendo que, quando um produto é projetado para prender o paladar e o cérebro, a resposta deve ser múltipla — educação, rotulagem eficaz, restrições de marketing e, possivelmente, regulação semelhante à aplicada ao tabaco.
Do ponto de vista prático, isso implica reavaliar como classificamos e intervimos sobre aquilo que colocamos no prato. Não se trata de demonizar sabores nem de empurrar uma moralidade alimentar; trata-se de entender os mecanismos que transformam escolhas em rotinas e rotinas em dependência. Saborear um alimento deve ser um ato consciente, uma colheita de prazer ligada ao bem-estar, não uma resposta automática programada por ingredientes e design industrial.
Os pesquisadores não concluem que toda indústria alimentar seja comparável à indústria do tabaco em todas as frentes, mas defendem que as semelhanças em engenharia do produto, estratégias de marketing e efeitos sobre comportamentos merecem um olhar crítico e uma resposta regulatória proporcional. É um convite para que políticas públicas, profissionais de saúde e cidadãos se alinhem numa conversa que vai além das calorias: uma conversa sobre como queremos que seja a respiração da nossa cidade, o ritmo das refeições e as raízes do nosso bem-estar.
Como observador e redator atento aos ritmos italianos, lembro que mudar hábitos é como plantar uma árvore: exige tempo, condições certas e cuidado. Reduzir a presença de alimentos ultraprocessados na dieta quotidiana é plantar um jardim de escolhas — mais lentas, mais naturais, mais saudáveis — que pode, com paciência, transformar o inverno da compulsão em um despertar da paisagem.






















