Seis anos após a tempestade que foi a pandemia de Covid-19, o mundo aprendeu a ler sinais sutis no ar como quem observa nuvens antes da chuva. A atenção a vírus emergentes permanece alta: enquanto o Covid e o mpox circulam de forma silenciosa, outros agentes continuam a provocar surtos esporádicos e exigem olhos e ouvidos atentos.
Nos últimos dias, a OMS informou sobre um novo episódio que reacende essa vigilância: o vírus Nipah, transmitido por morcegos, infectou dois profissionais de saúde na Índia. Não se trata de novidade naquele país — o Nipah já é conhecido há mais de duas décadas — mas o alerta persiste. Para a OMS, o risco global por ora é considerado baixo; contudo, a taxa de letalidade do Nipah é elevada e não existem vacinas ou tratamentos específicos aprovados, razão pela qual a vigilância não pode relaxar.
Há, porém, uma lição sutil: concentrar-se em um único perigo pode ofuscar outros inimigos. Um estudo publicado na revista Emerging Infectious Diseases, dos CDC norte-americanos, reconstruiu o caso de cinco pacientes em Bangladesh internados com sintomas que sugeriam Nipah. Testes iniciais descartaram a infecção e exames posteriores mostraram que outros agentes podem mimetizar quadros clínicos semelhantes. Esse tipo de investigação reforça a ideia de que o diagnóstico diferencial e a vigilância ampla — sobretudo em regiões onde zoonoses florescem como plantas silvestres após a chuva — são essenciais.
Além do Nipah, cientistas e autoridades destacam outros microrganismos sob observação: cepas de gripe aviária, vírus neurotrópicos pouco conhecidos, e até variantes de coronavírus que circulam entre animais domésticos. O caso do coronavírus canino foi citado entre os agentes que merecem atenção: embora a transmissão animal-homem seja incomum, a capacidade de alguns vírus de recombinar e saltar espécies pede prudência e monitoramento contínuo.
O chamado por um modelo One Health — que integra saúde humana, animal e ambiental — já não é apenas preceito teórico: é cultura prática. Fortalecer a vigilância genômica, investir em diagnósticos rápidos, proteger profissionais de saúde com equipamentos adequados e capacitação, e ampliar a capacidade de resposta sanitária formam a coluna vertebral da defesa contra novos surtos.
Há avanços claros desde 2020: laboratórios conectados, plataformas de sequenciamento mais acessíveis e redes de alerta mais eficientes. Mas a OMS lembra que essas conquistas são frágeis — vivem como folhas ao vento — e exigem manutenção constante de investimento e cooperação internacional.
Na prática cotidiana, isso significa políticas públicas que reconheçam a zoonose como parte da paisagem, campanhas que informem sem semear pânico e protocolos clínicos que considerem um cardápio amplo de agentes quando surge um quadro inexplicado de febre e encefalite. Significa também cuidar das margens: dos ambientes onde humanas e animais se encontram, das matas que recuam e das cidades que avançam, porque é aí, nessa borda, que germina grande parte das próximas ameaças.
Como observador das estações e do corpo que habita a cidade, digo que a vigilância é um cultivo contínuo — regar conhecimento, podar práticas arriscadas, semear cooperação. Entre Nipah e o coronavírus canino há um lembrete simples e profundo: o mundo se move em ciclos, e nossa defesa depende de ver, escutar e agir em harmonia com esses ritmos.






















