Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
Introdução: as Olimpíadas como linguagem visual
Nas Olimpíadas de Inverno Milano‑Cortina 2026, a roupa oficial das delegações deixou de ser mero equipamento técnico para transformar‑se em enunciado cultural. Desde a cerimônia de abertura, as uniformes ocupam um lugar central no palco simbólico dos Jogos: são peças pensadas para desempenho, sim, mas também projetadas para serem vistas, lidas e interpretadas como parte de uma narrativa coletiva. Em um contexto em que Milão se afirma como capital simbólica da moda, essa combinação de estética e funcionalidade ganha dimensão política e identitária.
A Mongólia: couture de resistência e memória
O vídeo de apresentação do time da Mongólia é exemplar na forma como traduz tradição em espetáculo. Nele, uma jovem em azul permanece imóvel na neve, com o olhar firme direcionado à câmera; ao fundo, uma manada de cavalos brancos galopa em câmera lenta. A montagem alterna rostos marcados pelo frio, gestos que remetem a rituais nómades e closes nos tecidos — o cashmere mongol, as acabamentos em seda, os bordados em dourado. Colarinhos altos, linhas sobrepostas e volumes que envolvem o corpo evocam o traje tradicional, reinterpretado em chave contemporânea.
O fio narrativo é claro: as uniformes não são só trajes técnicos, mas aquilo que uma cultura “carrega” através do inverno — um inventário simbólico de resistência, tradição e continuidade. A frase final do filme — “What we carried through the winter, we carry to the world” — explicita esse propósito. Ao situar a peça no contexto do Grande Império Mongol (séculos XIII a XV), o projeto conecta vestimenta, história e orgulho nacional. Não é obra de ficção que o trabalho tenha recebido aplauso também dentro do próprio país, especialmente em contrapartida às uniformes de Paris 2024, celebradas pela crítica de moda, mas acusadas por parcela do povo mongol de um posicionamento estético demasiado influenciado por referências externas — “muito chinesas”, segundo relatos locais.
Itália anfitriã: EA7 Emporio Armani e a escolha do branco
Para a nação anfitriã, a assinatura é da EA7 Emporio Armani, responsável pelas uniformes oficiais do Team Itália. A decisão estética mais marcante é cromática: abandonar o azul histórico em favor do branco neve como cor dominante da coleção, com apenas pormenores discretos em tricolore. Trata‑se de uma opção consciente, que busca diálogo com a paisagem alpina e traduzir valores como pureza, rigor e respeito — uma oposição calculada ao espetáculo visual imediato, deixando a espetacularidade aos atletas.
Essa leitura resume, nas palavras dos responsáveis pelo projeto, uma estética da medida: a performance encontra a elegância contida. A escolha remete tanto a uma tradição sartorial italiana quanto a um gesto simbólico de anfitrião que prefere a sobriedade do gesto à ostentação. É também um comentário sobre como a indumentária pode intervir no modo como uma nação se apresenta internacionalmente: não apenas para seduzir, mas para afirmar modos de ver e ser.
Moda, identidade e geografia simbólica
Quando as uniformes tornam‑se virais nas redes, o que está em jogo não é apenas a estética. É uma disputa sobre representação: quem define o que uma nação “parece”? No caso mongol, a costura é uma resposta histórica; no caso italiano, a paleta é uma leitura geográfica e climática. Em ambos os casos, vestuário e comunicação visual se articulam como instrumentos de soft power, capazes de condicionar percepções e reforçar narrativas de legitimidade cultural.
Essa dimensão é particularmente relevante numa edição dos Jogos organizada na Itália, um país onde moda e esporte se cruzam com frequência. Estádios e passarelas são igualmente espaços de projeção internacional, e as escolhas estilísticas das delegações funcionam como pequenas embaixadas móveis.
Recepção pública e o papel das redes sociais
Se a narrativa oficial opta por estilo e medida, nas redes sociais o discurso se fragmenta. O imediato, o visualmente impactante e o meme disputam atenção com análises mais profundas sobre simbolismo. Vídeos curtos, imagens e threads transformam as uniformes em tópicos de conversa global: algumas receberam aclamação por autenticidade; outras, críticas por supostas influências externas ou por escolhas formais controversas.
Esse fenômeno não é novo, mas ganha velocidade e alcance inéditos graças à circulação digital. A uniformização das tramas visuais — short‑clips, estampas, comparações com o passado — constrói uma memória coletiva que antecede, acompanha e prolonga os Jogos. Em suma, a indumentária olímpica transforma‑se em produto simbólico que alimenta a narrativa pública e a historiografia cultural dos eventos esportivos.
Reflexão histórica: da roupa de guerra à roupa de cena
Olhar essas escolhas estéticas com lente histórica ajuda a entender por que tanto ruído se forma em torno de um casaco ou de um bordado. Trajes evocam mantos de batalha, civis e religiosos; carregam conotações de poder, território e pertença. O caso mongol é paradigmático: remonta a um passado imperial cuja figuração é, ainda hoje, motor de um imaginário político e cultural. A Itália, por sua vez, exerce seu soft power recorrendo a uma tradição de elegância contida que, ao adotar o branco neve, dialoga com montanhas, glaciares e com uma ideia de respeito ao cenário natural dos Jogos.
Conclusão: Olimpíadas como desfile de identidades
As Olimpíadas Milano‑Cortina 2026 não serão apenas palco de competições; serão uma grande vitrine onde moda, história e geopolítica se encontram. As uniformes funcionam como emblemas em movimento: condensam memórias, estratégias simbólicas e escolhas estéticas que dizem tanto do presente quanto de narrativas profundas de nação e cultura. Como repórter e analista, vejo nessas decisões uma oportunidade para pensar o esporte não apenas pelo resultado esportivo, mas pela capacidade de gerar discursos sobre identidade, memória e representação — e por isso a atenção a cada linha, cada tecido e cada cor é, em última análise, uma forma de compreender como as sociedades contemporâneas se projetam no mundo.
Nota editorial: este texto aborda a interseção entre moda e representação nacional nos Jogos de Milano‑Cortina 2026, analisando projetos de uniformes e suas repercussões culturais.






















