Fontana di Trevi: a introdução de um ticket de 2 euros para acessar a área imediatamente em frente ao monumento gerou reação imediata entre profissionais do turismo e moradores. Em apuração direta e cruzamento de fontes, Isabella Ruggiero, presidente da AGTA (Associação de Guias Turísticas Habilitadas), define a medida como a venda de um patrimônio Unesco e alerta para precedentes que podem reconfigurar os espaços urbanos de Roma.
“Sia ben chiaro: il problema non sono i 2 euro in sé”, afirmou Ruggiero em entrevista. A declaração, traduzida e verificada, enfatiza que o foco da crítica não é o valor simbólico — dois euros representam pouco para quem organiza uma estadia na capital —, mas sim a transformação de um espaço público e aberto em um local sujeito a tarifação e controle.
O ponto central do argumento técnico apresentado por Ruggiero é arquitetônico e patrimonial: a Fontana di Trevi é uma obra do barroco cuja força estética advém da integração entre a praça e a própria fonte. “Se tu le dividi uccidi l’opera stessa”, resumiu a presidente da associação de guias. Na prática, a instalação de cordões, controle de acesso e bilhetes cria uma fronteira que, segundo a dirigente, desnaturaliza a experiência e compromete a fruição pública da obra.
Além da crítica estética, há uma preocupação logística e social: desde que foi implantado o sistema de contingenciamento ao reservatório da fonte, há cerca de um ano, o problema não melhorou — pelo contrário. A restrição criou gargalos, espaços de circulação mais estreitos e filas extensas para quem tenta aproximar-se do monumento. Em vez de dispersar multidões, a limitação concentrou-as em corredores de acesso, ampliando a sensação de superlotação e de gestão improvisada.
No plano econômico, o argumento oficial da prefeitura é que a receita vai financiar iniciativas culturais e serviços — entre eles, a ampliação da gratuidade de alguns museus para residentes. Ruggiero contesta essa narrativa: já existe a Mic card, que garante entrada gratuita a museus comunais para moradores de Roma e da área metropolitana mediante uma taxa anual de 5 euros. Ou seja, a promessa pública esbarra em medidas já vigentes e na opacidade sobre a destinação efetiva dos recursos arrecadados.
Há, ainda, um receio político-administrativo: se o critério para fechar ou tarifar áreas públicas passa a ser a demanda turística, a gestão do espaço urbano será orientada prioritariamente pelos visitantes e não pelos residentes. “É um precedente perigosíssimo”, afirma Ruggiero, citando possibilidades que antes eram impensáveis, como fechar a escadaria da Piazza di Spagna ou limitar o acesso à Piazza Navona.
Do ponto de vista da governança, o episódio merece um raio-x do cotidiano da cidade: decisões tomadas com justificativas econômicas podem ocultar efeitos permanentes sobre o direito ao espaço público e sobre o patrimônio coletivo. A apuração in loco confirma que a medida trouxe resultados mistos — alguma redução do espaço imediatamente diante da fonte, porém agravações na circulação e aumento de filas — e que as promessas de reinvestimento carecem de maior transparência.
Em síntese, a controvérsia sobre o ticket Fontana di Trevi reúne três vetores: tutela patrimonial, gestão do uso do espaço público e transparência na alocação de receitas públicas. A cidade de Roma, observada por especialistas em overtourism e por moradores, continuará empurrando a questão para um debate mais amplo sobre quem tem prioridade na cidade e como proteger bens classificados pela Unesco sem restringir o direito coletivo ao uso do espaço.






















