Por Chiara Lombardi — No pulso acelerado do espetáculo, há quem prefira a pausa deliberada. É com essa boa contradição que Enrico Nigiotti retorna ao palco do Sanremo 2026. O cantautor livornês chega ao Ariston pela quarta vez — cinco anos depois da última participação — com a canção “Ogni volta che non so volare”, um reflexo íntimo sobre fragilidade, suporte afetivo e a escolha consciente pela autenticidade.
O single antecipa o sexto álbum de estúdio do artista, “Maledetti Innamorati”, previsto para sair em 13 de março. Em conversa com a Adnkronos, Nigiotti descreve um momento de renovada consciência pessoal e artística: um equilíbrio que nasce da paternidade, da experiência de palco e do desejo de dar valor ao que é verdadeiro. É como se o seu novo repertório fosse um roteiro silencioso que reencena a cena da intimidade num festival que muitas vezes celebra o espetáculo em sua forma mais vistosa.
Voltar a Sanremo pela quarta vez não é apenas repetir um gesto: é revisitar um espelho onde o artista mede as próprias transformações. Nigiotti confessa que cada passagem pelo festival tem a mesma emoção da primeira vez, mas hoje vem com outra solidez — fruto de uma rotina intensa de shows. “Vim de um verão com cerca de trinta datas”, diz ele; a estrada o reforçou: as câmeras do festival importam, mas, no fim, é sempre música e oficio. O palco continua sendo o lugar onde ele se reconhece.
Sobre a ansiedade, Nigiotti é direto: conhece-a, mas não mais como um limite. Quando a arte vira profissão, o medo perde parte do poder de paralisá-lo. A sensação que descreve agora é mais parecida com uma expectativa calorosa — aquela “ansietta” que antecede o encontro com alguém que te faz bem. É uma cena cinematográfica pequena e real, em contraponto ao grande circo midiático.
“Ogni volta che non so volare” traduz em nota e verso a vulnerabilidade e a urgência de afeto: quem lhe dá asas? Para Nigiotti, são as relações verídicas — aquelas que se contam nas pontas dos dedos — capazes de sustentar e reerguer. Em um mundo que multiplica vínculos superficiais com termos como “fra” e “bro”, ele aponta para a densidade rara das pessoas que permanecem, mesmo à distância, no papel de sustentáculos emocionais.
O artista também faz um convite sutil à desaceleração. Em suas palavras — uma frase que já soa como lema —: em um mundo que corre “a cento all’ora”, ele ainda prefere caminhar devagar. É um posicionamento que soa quase como um manifesto contra a pressa industrial das redes e da imagem. Em tempos em que a aparência muitas vezes vence o conteúdo, Nigiotti escolhe a honestidade do cotidiano, a paternidade que transforma, a observação que revaloriza o simples.
Sobre o rumor que sempre permeia festivais como Sanremo — a hipótese de um pulo ao Eurovision —, ele é cristalino: “Proprio non ci penso”. A resposta dissolve expectativas fáceis; Nigiotti não está em busca de atalhos espetaculares, mas de coerência artística e humana.
O retorno ao festival, então, não é um ato de vaidade, mas uma cena desse roteiro oculto: um artista que prefere o close íntimo à explosão efêmera, que busca traduzir em canções a paternidade, o chão e a verdade. Em um tempo que exige muito e oferece pouco, seu novo disco promete ser um espelho: modesto, mas capaz de refletir aquilo que, muitas vezes, preferimos não ver.





















