Por Marco Severini — Espresso Italia
Os líderes republicanos na Casa dos Representantes estão em uma corrida tensa por votos para aprovar, nesta terça-feira, 3 de fevereiro, a proposta que impediria um novo shutdown parcial, segundo anúncio do presidente da Câmara, Mike Johnson. O cenário, porém, desenha-se como um tabuleiro em que um movimento equivocado pode derrubar toda a estratégia: a maioria republicana é escassa e as rachaduras internas ameaçam transformar a manobra numa tentativa arriscada.
No núcleo da disputa estão as objeções de muitos democratas ao acordo que passou pelo Senado — um pacto que aprovou a maior parte do orçamento, mas deixou a dotação para o Departamento de Segurança Interna (Homeland Security) renovada apenas por duas semanas. A medida limitada visa abrir espaço para negociações que imponham restrições aos US$ 10 bilhões destinados ao ICE, a agência de fiscalização de imigração associada ao governo Trump.
O líder da minoria, Hakeem Jeffries, comunicou a Johnson que os democratas não irão cooperar para aprovar o orçamento completo enquanto não forem aceitas garantias concretas que limitem a política de controle migratório. Em outras palavras, não há apoio cruzado até que condições de contenção do poder do ICE sejam formalizadas.
Com uma margem de apenas cinco votos na maioria republicana, Johnson precisa virtualmente de unidade partidária para aprovar o projeto e, assim, pôr fim ao impasse que levou ao fechamento parcial do governo no último sábado. A equação é simples e cruel: se não houver apoio democrata, perder dois votos republicanos já é fatal para a passagem da proposta.
Um primeiro teste significativo ocorre hoje numa comissão marcada por uma forte presença do House Freedom Caucus, bancada ultraconservadora conhecida por obstruir gastos que considera excessivos. Entre os dissidentes, já há sinais claros: a deputada da Flórida, Anna Paulina Luna, anunciou que votará contra, a menos que seja incluída uma exigência de apresentação de comprovante de cidadania para votar — uma condição que amplia ainda mais a tensão interna do partido.
Enquanto isso, os democratas da comissão de Segurança Interna enviaram uma carta aos colegas pedindo oposição ao pacote: “Os democratas devem demandar mudanças reais que protejam nossas comunidades antes que ICE e CBP recebam mais um dólar”, afirmam. O recado é estratégico: não apenas um veto simbólico, mas uma tentativa de redirecionar as prioridades e impor condições.
Do ponto de vista da diplomacia doméstica e da geopolítica interna, trata‑se de um momento de tectônica de poder: a renovação temporária do financiamento funciona como um movimento defensivo no tabuleiro, preservando posições enquanto as peças maiores se reposicionam para uma disputa mais ampla sobre imigração e aplicação da lei. Para Johnson, a manobra é um exercício de engenharia política num terreno de areias movediças — qualquer concessão excessiva aos extremistas do partido pode custar-lhe a aprovação; qualquer recuo face aos democratas pode custar-lhe coesão interna.
O resultado do voto procedimental e o comportamento do House Freedom Caucus serão, portanto, leituras determinantes para os próximos lances. Em jogo não está apenas o orçamento imediato, mas os alicerces da negociação sobre políticas migratórias que definirão, nos próximos meses, o equilíbrio entre autoridade federal e controles institucionais sobre agências como o ICE.
Marco Severini — Espresso Italia





















