Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, discretamente, as linhas do tabuleiro diplomático, o Irã manifestou disposição para uma concessão considerável: suspender ou interromper seu controverso programa nuclear, segundo duas fontes citadas pelo New York Times. A possibilidade de um gesto dessa natureza altera a tectônica de poder regional e abre uma janela para negociações diretas com os Estados Unidos.
Fontes iranianas informaram que a República Islâmica ainda prefere a proposta apresentada pelos Estados Unidos no ano anterior à escalada de tensões: a criação de um consórcio regional para a produção de energia nuclear. Essa alternativa, concebida como um arcabouço multilateral, visa mitigar desconfianças e distribuir responsabilidades técnicas e políticas entre atores da região.
Estão previstos, possivelmente já nesta sexta-feira, diálogos em Istambul, Turquia, entre representantes norte-americanos e iranianos. Segundo relatos, quando o secretário do Conselho de Segurança Nacional do Irã, Ali Larijani, esteve com o presidente russo Vladimir Putin, levou a mensagem — originada da figura da Guia Suprema, Ali Khamenei — de que Teerã poderia aceitar o transferência para a Rússia do urânio enriquecido. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, confirmou que a matéria é “um tema há tempo em agenda” e que Moscou mantém contatos com todas as partes interessadas.
Fontes do New York Times, incluindo dois iranianos e um funcionário americano, afirmam que o chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, e o enviado do presidente Donald Trump, Steve Witkoff, têm mantido comunicações via SMS, o que denota negociações discretas e um canal direto de coordenação.
As conversações projetadas para sexta-feira, confirmadas por um funcionário árabe, por uma fonte regional, por um iraniano e por um ex-diplomata iraniano, buscam reunir à mesma mesa Witkoff, Jared Kushner — genro de Trump — e Araghchi. Espera-se ainda a presença de delegações da Turquia, Catar e Egito, enquanto representantes dos Emirados Árabes Unidos, Omã e Paquistão podem também participar.
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, anunciou que deu mandato ao ministro das Relações Exteriores, Araghchi, para iniciar negociações diretas com os Estados Unidos, desde que existam condições adequadas — isentas de ameaças e de expectativas irrealistas. Em rede social (plataforma X), enfatizou a busca por um processo “equo e imparcial” alinhado aos interesses nacionais.
No plano interno, os meios de comunicação do Irã reportaram um amplo incêndio no setor oeste de Teerã, na área do Janat Bazar/Jannat Abad. Bombeiros trabalham para controlar chamas que atingiram uma estrutura de aproximadamente 2.000 metros quadrados que abrigava estabelecimentos comerciais; edifícios vizinhos foram evacuados. Até o momento, não há confirmação oficial de vítimas, mas colunas de fumaça densa foram vistas de diversos pontos da capital.
Analisando o quadro com a frieza de um enxadrista que avalia um lance decisivo, este conjunto de sinais — oferta de suspensão do programa nuclear, disposição para transferência de material sensível à Rússia, canais diretos entre emissários e a convocação de atores regionais para Istambul — configura um movimento estratégico. Não é apenas uma manobra isolada: é um reposicionamento calculado, que busca criar alicerces para uma arquitetura de segurança mais estável, ao mesmo tempo que preserva as opções políticas internas do regime.
Se concretizadas, as conversas de Istambul não serão uma solução definitiva, mas podem funcionar como um enxerto institucional — um consórcio regional — que dilui responsabilidades e reduz o risco de choques diretos. A participação de mediadores regionais e a aceitação de um papel russo na custódia de material sensível mostram que o jogo diplomático está se movendo em múltiplas frentes, numa coreografia em que cada peça testa limites e oportunidades.
Como sempre em assuntos nucleares, a prudência é mandatória: a implementação técnica e a verificação serão tão cruciais quanto os acordos políticos. A diplomacia, como arquitetura, precisa de bases firmes; por ora, vemos apenas a colocação das primeiras pedras.






















