Por Marco Severini, Espresso Italia — Com a gravidade de um movimento decisivo no tabuleiro, iniciou-se no Tribunal Distrital de Oslo o julgamento contra Marius Borg Høiby, enteado do príncipe herdeiro Haakon e filho da princesa hereditária Mette-Marit. O acusado, 29 anos, declarou-se não culpado perante a corte vis-à-vis as acusações que reconfiguram, de modo abrupto, a imagem da família real norueguesa.
Os procuradores formularam 38 imputações contra Marius Borg Høiby, entre elas estupro, maus-tratos numa relação íntima contra uma ex-parceira, atos de violência contra outra pessoa e transporte de 3,5 quilos de maconha. Acusam-no ainda de ameaças de morte e infrações de trânsito. Há um histórico: há cerca de um ano e meio ele foi detido pela polícia norueguesa por um episódio de violência no apartamento de uma mulher em Oslo, e foi oficialmente indiciado em agosto.
Perante a pergunta formal sobre admissão de culpa, o réu respondeu “Não” às imputações relativas a estupro e abusos sexuais, negando também ter filmado as alegadas vítimas. A defesa sustenta que Marius nega todas as acusações de abuso sexual e a maioria das acusações de violência física.
Em desdobramentos recentes, Marius Borg Høiby esteve em liberdade até domingo, quando a polícia o deteve novamente, desta feita por agressão, ameaças com uma faca e violação de ordem restritiva. Em consequência, o tribunal decretou custódia preventiva por quatro semanas. Os promotores advertiram que, em caso de condenação, ele poderá enfrentar até 10 anos de prisão. O processo, previsto para se estender até 19 de março, terá duração de sete semanas, com sessões reservadas a portas fechadas para proteger as vítimas.
Foram impostas restrições rigorosas: proibido fotografar Marius Borg Høiby dentro e fora da sala, e vedada a divulgação de qualquer elemento que permita identificar as quatro mulheres que o acusam de violência sexual. A família real não aparecerá nas audiências que tramitam na sala 250 do Tribunal Distrital de Oslo — um gesto que simboliza o distanciamento institucional. O rei Harald V e a rainha Sonja viajarão para as Olimpíadas de Inverno na Itália, movimento que sublinha o isolamento do enteado perante a opinião pública.
Mette-Marit ocupa, nesta narrativa, um lugar ambíguo: embora seja figura central da monarquia e profundamente estimada pela população norueguesa, surgem revelações sobre seus vínculos com o financier falecido e documentos que a colocam em centenas dos chamados arquivos Epstein. É um fator adicional que complica a tessitura pública e diplomática em torno do caso, reformulando os alicerces frágeis da diplomacia simbólica da corte.
Marius nasceu quatro anos antes do casamento de Mette-Marit com o príncipe herdeiro; ainda que seja considerado membro próximo da família, não detém títulos ou funções oficiais. O processo representa, simultaneamente, um teste para a estabilidade da imagem real e um episódio delicado na tectônica de poder que orienta a vida pública norueguesa. Em termos estratégicos, trata-se de um confronto entre a necessidade de preservar instituições e o imperativo da justiça penal — um xeque complexo sobre o tabuleiro da reputação.
O tribunal informou que partes do procedimento decorrerão a portas fechadas e que há proibição expressa de divulgar informações que possam identificar as supostas vítimas. A audiência seguirá o calendário previsto, enquanto as investigações paralelas e as reverberações mediáticas continuam a redesenhar fronteiras invisíveis entre vida privada, responsabilidades públicas e escrutínio institucional.
Nota do autor: acompanho este caso com atenção às implicações para a estabilidade institucional e para as relações transnacionais que a realeza, mesmo hoje, ainda influencia. Movimentos judiciais como este têm repercussões além dos corredores do tribunal; são jogadas que reordenam percepções internas e externas sobre poder, legitimidade e responsabilidade.






















