Por Alessandro Vittorio Romano — Em uma colaboração que mistura engenharia, medicina e o silêncio azul do mergulho, o Cnr e a Scuola Superiore Sant’Anna de Pisa abriram uma janela inédita para o coração em imersão. Graças a uma tecnologia desenvolvida em 2005, pesquisadores italianos mapearam, em tempo real, as reações cardíacas humanas durante a immersione in apnea, apontando caminhos valiosos para o estudo de doenças como o edema polmonare acuto.
Chamado Betar asfar — expressão árabe que significa literalmente “coisa amarela” — o aparelho é um scafandro especial projetado para abrigar um ecocardiografo portátil, como os usados em consultório. Idealizado pelo engenheiro Remo Bedini, do Cnr de Pisa, o equipamento permite realizar exames ecocardiográficos até 20 metros de profundidade. Uma sonda ecográfica atravessa a estrutura e um luva estanque permite ao médico subaquático ajustar parâmetros do aparelho durante a imersão, transformando o silêncio aquático em imagens em movimento do coração.
Até então, os estudos se limitavam a dados coletados antes e depois das imersões. Com o Betar asfar, tornou-se possível observar ao vivo o comportamento cardíaco de mergulhadores e apneístas — estes últimos considerados modelos fisiológicos extremamente significativos. Após testes iniciais na piscina de Cascina, o scafandro foi utilizado com atletas de ponta, entre eles Umberto Pelizzari, e viajou por locais como Sharm El Sheikh e Bruxelas antes de encontrar, em Y-40 The Deep Joy (Montegrotto Terme, Padova), um laboratório ideal.
“Inserindo o strumento ecocardiografico no scafandro”, explica Claudio Marabotti, integrante da equipe de pesquisa e docente do Master II em Medicina Subacquea e Iperbarica ‘Piergiorgio Data’ (Scuola Sant’Anna em colaboração com Cnr-Ifc), “podemos obter imagens em movimento do coração, informações sobre o fluxo sanguíneo e a fisiologia cardíaca durante a imersão — algo que antes não era possível.” Marabotti destaca também vantagens logísticas de Y-40: condições ambientais padronizadas que tornam as respostas fisiológicas reprodutíveis, facilidade de acesso e a possibilidade de içar o pesado scafandro com o guincho disponível.
Os dados coletados com o Betar asfar mostram que, ainda que com diferenças marcantes, o coração humano em imersão responde de maneira análoga ao de mamíferos marinhos. Esses padrões lançam luz sobre mecanismos como a bradicardia reflexa e a redistribuição do fluxo sanguíneo, e oferecem indicações cruciais para entender e prevenir condições como o edema pulmonar agudo relacionado ao mergulho.
Como observador atento às conexões entre ambiente e bem-estar, vejo nesta pesquisa algo como a escuta do “tempo interno do corpo” contra a respiração tranquila do mar: ao medir o pulso do mergulhador sob pressão, os cientistas colhem sinais que podem traduzir-se em melhores práticas médicas e em maior segurança para quem vive ou explora o azul. A tecnologia do scafandro transforma a imersão — costumeado como silêncio e escuridão — em um terreno fértil para conhecimento, uma colheita de hábitos que pode proteger vidas.
Além do valor científico, o uso contínuo do equipamento em atividades didáticas e de pesquisa confirma uma outra verdade: o avanço técnico precisa de lugares que respirem constância e cuidado. Y-40 tornou-se essa pausa segura, onde a logística encontra a poesia do mergulho, e onde o batimento cardíaco humano se revela, por um instante, irmão distante do dos cetáceos — ambos pertencentes à mesma narrativa líquida da vida.
Os próximos passos da equipe prometem refinar ainda mais os sinais obtidos, integrando observações que podem influenciar protocolos de mergulho e tratamentos clínicos. Assim, entre a técnica precisa do ecocardiograma e a respiração profunda do oceano, a pesquisa italiana nos convida a respeitar e entender melhor o nosso próprio ritmo interno — mesmo quando o corpo decide ouvir o chamado das profundezas.






















