Gimbe afirma que o Decreto listas de espera ainda não apresentou benefícios concretos para os cidadãos, mesmo 18 meses após sua aprovação. Na sua mais recente análise independente, a fundação destaca que persistem lacunas essenciais na implementação: faltam dois decretos regulamentares que deveriam orientar a aplicação prática das medidas previstas.
Em 2025 foram registradas 57,8 milhões de prestações na Piattaforma nazionale per le liste d’attesa, entre elas 24,2 milhões de primeiras consultas especializadas e 33,6 milhões de exames diagnósticos. No entanto, segundo a Gimbe, a plataforma não cumpre seu papel de mapa: não mostra onde se formam os gargalos, em que regiões ou empresas públicas os atrasos são mais acentuados, nem quais tipos de prestações são mais afetados. Em outras palavras, os dados existem, mas oferecem pouca clareza para o cidadão que busca entender o próprio percurso de cuidado.
A análise ressalta ainda que se estima que cerca de 30% das prestações tenham sido realizadas em intramoenia, ou seja, em regime privado dentro das estruturas públicas. Essa informação, para a Gimbe, é crucial porque indica deslocamentos no acesso e possíveis desigualdades no uso dos serviços, mas não é devidamente destacada ou pesquisável na plataforma nacional.
Depois de um ciclo de anúncios e promessas — inúmeros comunicados públicos e declarações institucionais — o que resta é a sensação de que o sistema ainda respira de forma irregular. A plataforma descreve o cumprimento dos prazos por meio de indicadores que a fundação considera incompreensíveis para o cidadão comum, e não demonstra as diferenças entre regiões, entre empresas sanitárias nem entre público e privado acreditado. Também não detalha claramente o que é prestado pelo Sistema Nacional de Saúde e o que é realizado em intramoenia.
Na língua das rotinas cotidianas, é como se tivéssemos um grande relógio da cidade — a Piattaforma nazionale per le liste d’attesa — que marca as horas, mas cuja face está coberta por números embaralhados. O resultado é que quem depende do sistema público não consegue planejar sua própria jornada de saúde; falta transparência, e com ela a confiança.
Para virar a página, a postura sugerida pela Gimbe passa por tornar os dados acessíveis e interpretáveis: indicadores claros, comparações regionais e por empresa, distinção entre público e intramoenia, e a publicação dos atos regulamentares pendentes que orientem a aplicação do decreto. Sem isso, as boas intenções ficam como sementes caídas em solo pouco fértil — é preciso cultivar medidas práticas para colher benefícios reais.
Como observador atento das relações entre ambiente e bem-estar, vejo nesse quadro um convite à colheita de hábitos institucionais: mais transparência é também um cuidado com o tempo interno do corpo coletivo, com a respiração da cidade e com a paz de quem espera por um diagnóstico ou por uma visita que pode mudar a sua vida.






















