Por Giulliano Martini — Apuração e cruzamento de fontes. Um estudo publicado no British Journal of Social Psychology e conduzido por pesquisadores da SWPS University e da Universidade de Wrocław mostra que a relação entre verdade e moralidade na comunicação é mais complexa do que costuma ser apresentada. A pesquisa envolveu quase 900 participantes nos Estados Unidos e buscou avaliar como as pessoas julgam quem fornece feedback negativo.
Os autores identificaram um perfil que definiram como mentirosos prosociais: indivíduos que atenuam, omitem ou alteram a informação para proteger o interlocutor e evitar ferir seus sentimentos. Esses interlocutores foram, sistematicamente, avaliados como mais morais do que aqueles que dizem a verdade de forma direta e sem rodeios. A explicação dos pesquisadores é que a suavização da mensagem sinaliza maior sensibilidade às necessidades emocionais do outro.
No entanto, o estudo revela uma tensão clara entre a apreciação do comportamento alheio e as preferências pessoais: quando o feedback é sobre si mesmos, cerca de 70% dos participantes preferiram avaliadores diretos, que entregam um feedback honesto e sem dissimulações. Em contrapartida, ao ponderarem sobre pessoas emocionalmente vulneráveis, os mesmos participantes tenderam a favorecer comunicações mais protetivas — indica uma ambivalência social entre o valor atribuído à proteção emocional e ao dever de sinceridade.
Os dados deixam claro que não existe uma estratégia comunicativa universalmente aceita. Segundo os pesquisadores, o que muda é o contexto social e o nível de vulnerabilidade de quem recebe a mensagem. Em termos práticos, a “moralidade da comunicação” se mostra situacional: em alguns cenários a omissão ou o eufemismo são entendidos como gestos éticos; em outros, a honestidade direta é percebida como mais valiosa.
Do ponto de vista jornalístico e de análise social, a contribuição principal do estudo está em quantificar a ambivalência cotidiana: a preferência por sinceridade quando o julgamento incide sobre si mesmo, frente à preferência por proteção quando o destinatário é frágil. Isso altera a forma como avaliamos condutas que até então eram rotuladas de forma simplista como “mentiras” ou “verdades”.
Conclusão técnica: gestores, profissionais de recursos humanos, educadores e comunicadores públicos devem calibrar suas mensagens conforme o receptor e o contexto, porque a atribuição de moralidade a um ato comunicativo depende mais da situação do que de uma regra absoluta. O estudo lembra que políticas de comunicação e treinamentos devem incorporar essa nuance: nem toda omissão é imoral, nem toda franqueza é virtuosa.
Apuração precisa, linguagem direta, e dados cruzados — a realidade traduzida sem ruído: é assim que se separa o fato da retórica no debate sobre mentirosos prosociais e a ética da comunicação.





















