Pezeshkian anunciou uma guinada diplomática que pode redesenhar, de forma sutil porém significativa, o mapa de influência no Oriente Médio. O presidente iraniano instruiu seu chanceler a abrir canais de diálogo diretos com Washington — desde que sigam condições que preservem a dignidade e os interesses nacionais. Paralelamente, as autoridades de segurança informaram sobre prisões relacionadas aos protestos internos que atravessam o país.
Na região central do Irã, a polícia da província de Yazd, representada pelo chefe Ahmad Negahban e citada pela agência Tasnim, afirmou ter detido 139 estrangeiros envolvidos nas manifestações iniciadas em 28 de dezembro. Segundo Negahban, as pessoas detidas estariam “envolvidas na organização, no incitamento e na condução das revoltas” e, em alguns casos, mantinham contato com redes externas. As nacionalidades desses detidos não foram especificadas pelas autoridades.
Os protestos surgiram como reação inicial à crise econômica e ao alto custo de vida, mas rapidamente se ampliaram em direção a uma contestação mais abrangente do regime. As estimativas de vítimas permanecem controversas: o governo iraniano reconhece a morte de mais de 3 mil pessoas durante os distúrbios, publicando uma lista que inclui 2.986 nomes adicionados a um registro total de 3.117 mortos. O Executivo sustenta que grande parte das vítimas foi constituída por membros das forças de segurança e civis atingidos por ataques atribuídos a “terroristas” a serviço de Estados Unidos e Israel.
Organizações de direitos humanos oferecem contagens divergentes e muito superiores — a ONG HRANA, sediada nos Estados Unidos, por exemplo, documenta 6.854 mortes, em sua maioria manifestantes; outras fontes independentes falam em números ainda maiores, na casa de várias dezenas de milhares. Essa discrepância revela a fragilidade das fontes e a disputa simbólica pelo controle da narrativa — um problema recorrente quando a tectônica de poder local se encontra em movimento.
No campo diplomático, o presidente Pezeshkian comunicou via X que delegou ao ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, a responsabilidade de iniciar negociações diretas com os Estados Unidos, desde que existam “condições apropriadas — livres de ameaças e expectativas irrazoáveis”. O objetivo declarado é procurar diálogos “justos e imparciais” que respeitem os interesses nacionais do Irã, guiados pelos princípios de dignidade, prudência e oportunidade.
Fontes americanas e reportagens do jornalista Barak Ravid indicam que o encontro bilateral com o enviado da Casa Branca, Steve Witkoff, estaria agendado para uma cimeira em Istambul. Ao que tudo indica, a reunião pode reunir também os ministros das Relações Exteriores de Turquia, Qatar, Egito, Omã, Arábia Saudita e Paquistão — e há menção a uma possível participação dos Emirados Árabes Unidos. A presença do conselheiro Jared Kushner, genro e antigo assessor próximo do presidente Donald Trump, é citada como provável, o que acrescentaria outra camada de complexidade política ao encontro.
A iniciativa tem a aparência de um movimento calculado no tabuleiro regional: oferece um canal de desconcentração da tensão entre Teerã e Washington, ao mesmo tempo em que envolve atores regionais que actuam como pilares e mediadores — Turquia, Qatar e Omã, por exemplo, têm histórico de pontes discretas. Contudo, a operação diplomática exige alicerces de confiança que hoje parecem frágeis. Condições prévias, verificação de compromissos e garantias serão o campo de batalha onde se decidirá a utilidade prática desse contato.
Do ponto de vista estratégico, aceitar negociações diretas sem concessões essenciais equivaleria a um sacrifício de alavancas de poder; recusá-las inexoravelmente manteria o impasse. A saída, plausível em teoria e difícil na prática, passa por um acordo de procedimento que proteja a face dos interlocutores e permita ganhos incrementais — um típico movimento posicional de xadrez, em que se troca terreno por informação e segurança.
Em suma, estamos diante de um episódio que pode representar tanto uma janela diplomática quanto um mero gesto simbólico. O desfecho depende não apenas dos participantes anunciados, mas sobretudo das garantias concretas que acompanharem as conversas. Em um tabuleiro regional marcado por fraturas e interesses sobrepostos, qualquer abertura negociada deverá ser tratada com a sobriedade e a prudência de um estrategista que conhece bem a geografia do poder.





















