Por Alessandro Vittorio Romano — Quando a pandemia começou a ceder, ficou claro que o rastro do vírus nem sempre se extinguia com a cura clínica: muitos carregam uma memória corporal da infecção. Uma colaboração internacional coordenada pelo Centro de pesquisa Aldo Ravelli da Università Statale di Milano aponta, em um artigo de consenso, o papel do Covid-19 nas complicações do sistema nervoso, popularmente agrupadas hoje sob o rótulo Neurocovid.
Publicada na revista de referência Nature Reviews Disease Primers, a revisão reúne especialistas de instituições como Yale University, University of California e University of London para organizar o que se sabe até agora sobre os mecanismos patobiológicos por trás das manifestações neurológicas e psicológicas tanto na fase aguda quanto no chamado Long Covid. Os autores descrevem a infecção por Sars-CoV-2 como uma espécie de “tempestade perfeita”: um evento que pode desencadear processos inflamatórios e, potencialmente, vias que favoreçam mecanismos de neurodegeneração.
Estima-se que o Long Covid, condição crônica que pode surgir meses após a recuperação, acometa entre 80 e 400 milhões de pessoas globalmente, com incidência variando de 5% a 20% na população geral e alcançando até 50% entre pacientes que necessitaram de hospitalização na fase aguda. Esse dado, por si só, desenha um impacto em larga escala sobre a capacidade de trabalho, sobre redes familiares e sobre a própria respiração social das cidades.
A participação da Statale de Milão, reconhecida pelo contributo significativo no cenário internacional, contou com os neurologistas Tommaso Bocci e Alberto Priori, este último coordenador do Centro Aldo Ravelli e diretor da Clínica Neurológica do Polo Universitário San Paolo. Durante os anos mais intensos da pandemia, o grupo liderado por Priori foi pioneiro na Lombardia ao implementar linhas de investigação multidisciplinares e foi um dos primeiros a identificar o vírus no sistema nervoso central, documentando o seu trânsito ao longo do nervo vago que conecta pulmões e cérebro.
O consenso detalha os sintomas mais recorrentes do Neurocovid: brain fog (neblina mental), déficit de memória, fadiga persistente, cefaleia, distúrbios do sono, ansiedade, depressão e neuropatias. Além da esfera clínica, os autores destacam as consequências sociais — redução da qualidade de vida e da capacidade laboral — que afetam de modo desigual mulheres, trabalhadores em maior exposição e grupos socioeconomicamente vulneráveis.
Em tom de aviso e também de orientação, o artigo apresenta as atuais perspectivas terapêuticas e chama atenção para a necessidade de abordagens integradas, que unam neurologia, saúde mental, virologia e reabilitação. É um apelo à colheita de práticas e políticas que protejam os ritmos vitais das pessoas e não só o prontuário hospitalar.
Enquanto a ciência descreve os contornos desse novo mapa neurológico, cabe a nós observar com sensibilidade as alterações subtis — o “inverno da mente” que tarda em passar para alguns, a lenta primavera de outros — e construir caminhos de cuidado que acompanhem tanto a biologia quanto a vida cotidiana. A conclusão é clara: o legado do Covid-19 pode se estender para além da doença aguda, pedindo atenção continuada e políticas públicas que acolham essa complexidade.






















