Por Marco Severini — Em uma intervenção medida e estratégica na conferência sobre segurança na Universidade de Oslo, a Alta Representante da União Europeia para a Política Externa, Kaja Kallas, sublinhou a necessidade urgente de um redesenho da abordagem europeia ao Ártico. A afirmação foi proferida numa sala onde a atmosfera já denunciava a percepção de que o tabuleiro geopolítico se move com maior velocidade e imprevisibilidade.
“A palavra deste novo ano é imprevisibilidade”, declarou Kallas antes de acessar o auditório, e ao seu lado o primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Støre, advertiu que há “pouco tempo para grandes problemas”. Em tom de diplomata que lê o mapa estratégico, Kallas defendeu que a atual política europeia para a região está desatualizada: o último documento comunitário sobre o Ártico data de 2021 e só foi retomado em novembro do ano passado.
Segundo a Alta Representante, é imprescindível formular “uma nova estratégia para o Ártico” que não trate a região apenas como uma questão ambiental, mas que integre explicitamente a dimensão da segurança e suas implicações. O argumento é simples e remete à tectônica das relações internacionais: quando mudam as linhas de influência e as capacidades operacionais, os alicerces da diplomacia exigem reforço.
Kallas deixou claro que o conteúdo final dessa estratégia ainda está em elaboração e que a Comissão Europeia está em diálogo com parceiros-chave, em particular a Noruega, para incorporar contributos nacionais e regionais. A leitura institucional que ofereceu evita o alarde e privilegia a implementação de decisões concretas: “Não necessitamos de outras instituições, mas de aplicar o que já foi decidido”, afirmou, apontando para uma ênfase prática sobre a retórica normativa.
No mesmo compasso, voltou-se à proposta de criação de um Conselho de Segurança Europeu, iniciativa promovida recentemente pelo Comissário Europeu para a Defesa, Andrius Kubilius, e que prevê um formato E5 plus — França, Alemanha, Itália, Espanha, Polónia e Reino Unido — para conferir maior capacidade de coordenação estratégica no seio da União. Trata-se de uma ideia que não é inteiramente nova: memórias diplomáticas recordam discussões entre Emmanuel Macron e Angela Merkel entre 2017 e 2019.
O diagnóstico sobre o funcionamento das instituições multilaterais foi franco: Kallas afirmou que as Nações Unidas “não estão a funcionar como deveriam”. Ainda que exista um conjunto plural de Estados que defendem um ordem baseada em regras, a Alta Representante alertou que essa arquitetura normativa pode revelar-se insuficiente sem mecanismos eficazes de aplicação. Com a frieza de quem move peças num xadrez de alta complexidade, recordou que, mesmo numa “lei da selva”, existem formas de cooperação — e que cabe agora aprofundar o direito internacional com os que verdadeiramente desejam um sistema baseado em regras.
Sobre as pressões externas, Kallas nomeou as tensões vindas tanto do leste quanto do oeste: Rússia e Estados Unidos figuram como fatores que remodelam estratégias e expectativas. A questão ucraniana foi tratada com cautela: existem sinais de pressão para que a Ucrânia aceite concessões a fim de encerrar o conflito, e a Alta Representante indagou — com o rigor de um analista de estratégia — como se pode garantir, a médio e longo prazo, que tais concessões não abram caminho a novas agressões.
Em síntese, a mensagem de Kallas em Oslo foi clara: o Ártico deixa de ser apenas um desafio ambiental para tornar-se um espaço de competição estratégica que exige da União Europeia uma resposta coerente, integrada e credível. A escolha agora é entre manter estruturas frágeis e reativas ou erigir, com método e aliados, um novo arcabouço que una proteção climática e capacidade de dissuasão — um movimento decisivo no grande tabuleiro da estabilidade euro-ártica.






















