Por Alessandro Vittorio Romano — Em uma virada que lembra a respiração acelerada de uma cidade antes da tempestade, o mundo dos esportes assistiu a mais um episódio que mistura imagem, carreira e ética: o letrozol foi apontado como presente nas análises que derrubaram a participação da biatleta italiana Rebecca Passler nos Jogos de Milano-Cortina. A notícia ecoa como o sopro frio de inverno, lembrando que o bem-estar competitivo tem raízes sensíveis que exigem cuidado.
Fabrizio Pregliasco, diretor da escola de especialização em higiene e medicina preventiva da Universidade dos Estudos de Milão La Statale, comentou o caso lembrando que o letrozol está entre os fármacos proibidos para atletas. “É um anti-tumoral usado no câncer de mama em mulheres; não é um anabolizante clássico, mas pode elevar o nível de testosterona no corpo e, em alguns casos, mascarar outros esteroides”, afirmou em nota.
O episódio remete a outras histórias: em alguns casos, atletas alegaram contaminação por suplementos alimentares — até uma tenista estrangeira conseguiu justificar o achado assim —, enquanto outros não encontraram explicações plausíveis. Esse cenário põe em relevo tanto a fragilidade das carreiras quanto a eficácia dos controles antidoping.
Pregliasco destacou ainda a rapidez e a precisão do mecanismo de validação dos testes: graças à sensibilidade analítica dos laboratórios, a atleta afetada perde a chance de competir nos Jogos. “É um desperdício, porque profissionais recorrem a estratégias assim, mas é justo ouvir a defesa de Passler. Se o uso fosse terapêutico, deveria ter sido declarado”, reforçou.
Como observador que gosta de traduzir as mudanças do cotidiano em cuidados de corpo e mente, vejo esse caso como uma pequena estação no calendário do atleta: decisões tomadas num instante podem alterar a colheita de anos de treino. A presença de um fármaco como o letrozol nas amostras revela tanto o rigor dos testes quanto as pressões que empurram competidores para caminhos de risco.
Além da esfera individual, há um impacto coletivo: protocolos, treinadores e equipes médicas devem manter práticas claras e registros precisos de tratamentos e suplementos. A transparência é a ponte entre a saúde do atleta e a legitimidade da competição — uma ponte que, quando frágil, revela o solo instável sob os pés de quem corre por medalhas.
Na Itália, onde o pulso das estações se mistura às tradições esportivas, casos como o de Passler servem de alerta. Não se trata apenas de punir ou perdoar; trata-se de cultivar uma cultura onde o corpo é respeitado como uma paisagem viva, e não apenas um instrumento de rendimento. Enquanto as análises prosseguem e as defesas são apresentadas, permanece a certeza de um sistema que, apesar das falhas humanas, consegue detectar sinais quase imperceptíveis — como uma maré que revela conchas na maré baixa.
Fiquemos atentos: o desfecho deste caso influenciará políticas, práticas e, sobretudo, a consciência coletiva sobre o equilíbrio entre tratamento médico, performance e integridade esportiva.






















