Ciao, viajante dos sentidos — aqui é Erica Santini, sua amiga ítalo-brasileira que convida a saborear a história como quem degusta um espresso ao entardecer. Em Madrid, o Prado abre um diálogo íntimo e visual com o seu público ao apresentar a primeira exposição monográfica dedicada exclusivamente à fotografia a partir de suas próprias coleções: “El Prado multiplicado: la fotografía como memoria compartida”.
Curada por Beatriz Sanchez Torija, a mostra reúne 44 obras selecionadas de um acervo que ultrapassa as 10.000 fotografias de inestimável valor patrimonial. Entre essas imagens, há registros produzidos ainda antes de muitos dos quadros hoje integrados às galerias do Prado, oferecendo um espelho histórico que antecede e acompanha a vida das obras.
Inserida no programa Almacen abierto, na sala 60, dedicada às coleções do século XIX, a exposição percorre a evolução técnica e funcional da fotografia: das albuminas e das impressões ao carbono às gelatinas e aos formatos populares como as cartolinas e postais. Cada superfície, cada grão, é um vestígio sensorial: a textura do papel, a luz capturada em prata, o perfume imaginado de uma sala que já não existe — imagens que permitem navegar pelas tradições do museu.
As fotografias documentam não apenas obras-primas — entre elas, o emblemático quadro de Velázquez, La rendición de Breda — mas também espaços históricos do próprio museu, revelando montagens, mobiliários e práticas museográficas hoje desaparecidas. É um percurso que transforma a imagem em testemunha e em memória viva: a fotografia como instrumento de difusão e como criadora da memória visual institucional.
Andiamo: mais do que reproduções, as imagens presentes em “El Prado multiplicado” recuperam gestos do passado, modos de ver e mostrar, e nos convidam para um olhar mais atento — quase táctil — sobre como guardamos e transmitimos a arte. Em cada fotografia, há um fragmento de tempo que se encontra com o visitante, traduzido em sombras, reflexos e composições que sussurram histórias do museu e dos olhos que o habitaram.
Para quem ama descobrir hidden gems, a exposição é uma viagem sensorial: sentir a luz dourada que atravessa as imagens, imaginar o ruído distante de visitantes de outras eras, e perceber a textura do tempo nas paredes e nos arquivos. É uma oportunidade para reconhecer a fotografia como protagonista na construção de uma memória compartilhada, essencial ao entendimento do Prado enquanto lugar vivo e colecionador de histórias.
Se puder, reserve um tempo para esta visita com o Dolce Far Niente: pare, observe e deixe que cada imagem lhe conte um segredo. Porque no Prado — como em toda boa viagem — o prazer mora nos detalhes.






















