Por Chiara Lombardi — Há momentos em que a ficção funciona como um espelho do nosso tempo e, em Motorvalley, esse reflexo vem com borracha queimarada na pista. A nova série de Matteo Rovere, disponível na Netflix a partir de 10 de fevereiro, recruta a adrenalina de um campeonato real para narrar uma história sobre perdas, segundas chances e o imponderável que move quem vive à beira do limite.
Na trama, Luca Argentero deixa temporariamente o jaleco de Andrea Fanti de Doc — ao menos até a quarta temporada — para encarnar Arturo Benini, um ex-campeão do campeonato italiano de Gran Turismo que agora assume o papel de treinador. Ao seu lado estão duas protagonistas que parecem tirar sua energia da mesma gasolina: Caterina Sforza é a audaciosa e indomável Blu, uma jovem piloto inquieta e sem freios; Giulia Michelini vive Elena Dionisi, herdeira ambiciosa de uma escuderia poderosa, com contas antigas a acertar.
O trio forma a Scuderia Sc17: Second Chance — um nome que sintetiza o tema central: todos merecem uma segunda oportunidade, como explica Francesca Manieri, uma das roteiristas ao lado de Rovere, Gianluca Bernardini, Michela Straniero e Erika Z. Galli. No elenco também figuram Giovanna Mezzogiorno e os pilotos reais Alberto Naska e Simone Tonoli, inserindo autenticidade nas sequências de pista.
Geograficamente e espiritualmente, a série retorna ao território já mapeado por Rovere em Veloce come il vento (2016), longa que lançou Matilda De Angelis. A chamada “valle dei motori”, entre Emilia-Romagna e norte das Marcas, ganha aqui uma aura quase mitológica — Rovere chega a compará-la a uma espécie de Hogwarts automobilística, um cenário onde a épica cotidiana se confunde com o risco e o encanto. Não é exagero: carros que parecem voar, incêndios dramáticos e máquinas que ganharam vida própria durante as filmagens compõem o imaginário da série.
Para garantir verossimilhança, os bólidos foram inscritos no campeonato GT3, com apoio das equipas reais. Ainda assim, Motorvalley não é uma extensão de Veloce come il vento. Argentero é enfático: o personagem Arturo não compete — ao contrário do papel de Stefano Accorsi no filme — e o seu drama não é o mesmo; há referências clássicas, como o mentor relutante à la Million Dollar Baby, mas a série busca sua própria fisionomia.
Em entrevista, Caterina Sforza confessa a admiração por Matilda e afirma ter bebido dessa fonte como inspiração, sem perder de vista a originalidade da narrativa. Já sobre rumores de que Luca Argentero possa ser um dos convidados do Festival de Sanremo, o ator se esquiva com elegância: “Não sei ainda, mas o convite é sempre bem-vindo”.
Motorvalley promete, portanto, mais do que cenas de velocidade: é um estudo sobre reparação, sobre como personagens derrotados encontram, na conjugação de ambição e solidariedade, um caminho de reinvenção. Como em um bom roteiro, a série convida o espectador a ler além das curvas — a entender que, às vezes, a pista é apenas o cenário de uma transformação humana.
Estreia na Netflix em 10 de fevereiro — seis episódios que cortam o cosmético e vão direto ao motor das emoções.






















