Por Giuseppe Borgo — A cena política italiana ganhou nas últimas semanas um capítulo que foge às quarentas negociações de gabinete e às manchetes sobre orçamentos: transformou-se numa disputa aberta pelo simbolismo cultural. No palco da Fondazione Feltrinelli em Milão, Elly Schlein lançou um desafio claro a Giorgia Meloni: “Dobbiamo riprenderci Tolkien” — ou, em português, precisamos resgatar Tolkien para outros argumentos políticos.
O gesto tem peso. A relação de Giorgia Meloni com a Terra-média é conhecida e até citada com orgulho no seu campo: não é a primeira vez que integrantes do centro-direita se referem ao universo do Senhor dos Anéis como metáfora de identidade e combate. No ano passado, segundo relatos públicos, a líder de governo foi celebrada com comparações quase épicas — “Giorgia é o nosso Frodo e nós somos a Companhia do Anel”, chegou a ser dito por vozes próximas ao partido. E, em 2023, durante um episódio que teve repercussão midiática, Meloni respondeu ironicamente a uma recusa de convite com citações de cinema e uma paráfrase do próprio Tolkien: “L’anello è insidioso, lusinga, ti circuisce. Ma quell’anello non ci avrà mai!”.
No entanto, a tentativa de reapropriação simbólica por parte da esquerda não é improvisada. Há precedentes intelectuais: em 2016, a escritora Chiara Valerio — presente ao lado de Schlein em Milão — organizou um número da revista Nuovi Argomenti dedicado à “misericórdia de Tolkien“. Entre as contribuições daquele dossiê figurava o nome de Michela Murgia, autora que já declarou publicamente a sua devoção pelas obras de Tolkien — “Impazzisco per Il Signore degli Anelli… Lo leggo una volta all’anno. È una bibbia”, disse ela em entrevistas passadas. Grupos acadêmicos e associações de estudiosos italianos também reivindicam o legado do autor inglês como campo aberto a leituras que valorizam o pacifismo, o ambientalismo e a centralidade dos “pequenos” contra a grande força militar — argumentos caros às correntes progressistas.
Resultado: o confronto saiu das arenas tradicionais e entrou na esfera dos símbolos. A disputa vai de Tolkien a Pasolini, passando por eventos e mitos que marcam a juventude política — como o festival Atreju, lembrado por muitos como referência do universo juvenil da direita. Não se trata apenas de reivindicar autores, mas de disputar os alicerces narrativos que ajudam a construir identidade e votos. É uma tentativa de derrubar barreiras burocráticas da comunicação política e de erguer pontes entre a linguagem cultural e o eleitorado indeciso.
Como repórter, observo que essa movimentação tem um objetivo prático: transformar repertórios culturais em instrumentos de persuasão eleitoral para as próximas urnas nacionais — com vista ao escrutínio de 2027. A batalha simbólica pode parecer menos tangível do que uma lei ou um decreto, porém pesa na formação de opiniões e na construção de lealdades. Em tempos em que cada gesto vale um ciclo de debates nas redes e nos programas de opinião, resgatar um autor ou um cineasta é também administrar o peso da caneta e da narrativa.
Fique atento: a disputa entre Elly Schlein e Giorgia Meloni promete calor — e a cultura será campo de batalha tão estratégico quanto uma praça política. A construção de direitos e a disputa pelo imaginário coletivo continuam sendo, de fato, uma arquitetura em formação.






















