Leuven, 2 de fevereiro de 2026 — Em discurso proferido na cerimônia do Patroonsfeest da Universidade de Leuven, Mario Draghi traçou um diagnóstico severo sobre a posição estratégica da Europa no xadrez global e lançou um apelo explícito à construção dos Estados Unidos da Europa. Para o ex-presidente do Conselho de Ministros e ex-presidente do BCE, a atual configuração europeia — mais próxima de uma confederação — não oferece os alicerces necessários para resistir às tensões crescentes entre potências e às transformações das cadeias produtivas mundiais.
Draghi advertiu que a transição do antigo para o novo ordenamento global não será automática: será um processo longo em que interdependências persistirão apesar do recrudescimento das rivalidades. Neste contexto, elevou o debate para além de retóricas domésticas, pedindo aos Estados-membros que superem nacionalismos e soberanismos que fragilizam a ação coletiva europeia.
O ex-governante sublinhou dois vetores de pressão simultâneos: os Estados Unidos e a China. Sobre os EUA, Draghi acusou a liderança atual, sob Donald Trump, de enfatizar os custos suportados pelos norte-americanos ignorando benefícios mútuos, impondo tarifas à Europa, ameaçando interesses territoriais europeus e, pela primeira vez de forma tão explícita, valorizando a fragmentação política europeia ao serviço dos próprios interesses norte-americanos.
Quanto à China, destacou o controlo de nós críticos nas cadeias de abastecimento globais, com domínio pronunciado em matérias-primas essenciais e em segmentos centrais para a transição verde europeia. Citou dados segundo os quais a China fornece mais de 90% de determinadas importações estratégicas, domina os elos de valor da energia solar e das baterias e está disposta a explorar tal influência, inondando mercados ou retendo inputs essenciais.
O quadro que Draghi desenha é claro e inquietante: um futuro em que a Europa corre o risco de se tornar subordinada, dividida e deindustrializada. A resposta, afirmou, não é uma medida isolada, mas um reposicionamento institucional e estratégico. Por isso, o ex-banqueiro central defendeu que a União Europeia avance do estatuto de confederação para o de federação, um movimento que implica maior capacidade decisória comum, instrumentos econômicos e de defesa mais integrados e uma lógica de solidariedade reforçada.
Na mesma linha pragmática, Draghi elogiou a atuação da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o esforço por construir alianças comerciais estratégicas — citando como exemplo a nova parceria histórica com a Índia — como forma de diversificação e de mitigação de riscos. Este pronunciamento também serve para neutralizar polarizações internas, convocando governos nacionais a não ceder a reações imediatistas ou a políticas miopes.
Draghi antecipou ainda o conteúdo de uma intervenção que deverá repetir no encontro informal de chefes de Estado e de Governo da UE, agendado para 12 de fevereiro, ao qual foi convidado juntamente com Enrico Letta: um momento destinado a fazer o ponto sobre uma situação que, segundo ele, “non è delle migliori”.
Da ótica de arquitetura geopolítica, trata-se de um convite a redesenhar as fronteiras invisíveis de poder: mover peças no tabuleiro europeu para assegurar autonomia estratégica, resguardar cadeias de fornecimento essenciais e preservar o tecido industrial. A tarefa é complexa e exige uma agenda institucional ambiciosa, disciplina política e visão de longo prazo — ingredientes que, sem dúvida, colocam os Estados-membros perante um teste de maturidade.
Em suma, Draghi propõe que a União Europeia se torne adulta na cena internacional, consolidando instrumentos comuns que transformem dependências vulneráveis em capacidades coletivas. É um movimento que lembra a renovação de uma arquitetura clássica: reforçar alicerces antes de elevar arcadas. Se a Europa não quiser ser peça menor na tectônica das grandes potências, a alternativa é clara: ou assume a forma de uma federação com meios compatíveis, ou corre o risco de ver seus interesses esgarçados entre potências rivais.
Marco Severini
Espresso Italia — análise e estratégia internacional






















