Rafah, 2 de fevereiro de 2026 — Em um movimento cuidadosamente calculado no tabuleiro diplomático, Israel autorizou hoje a reabertura parcial do posto fronteiriço de Rafah, na fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito. A medida faz parte do plano de paz acordado em outubro de 2025 e destina-se, em teoria, a facilitar a saída de feridos palestinos que necessitam de evacuação médica. Ainda assim, este gesto, por mais significativo que seja no papel, ocorre enquanto a campanha militar israelense prossegue: no fim de semana, pelo menos 30 pessoas foram mortas em ataques em Khan Younis e na Cidade de Gaza.
Em Bruxelas, a leitura oficial preferiu destacar o aspecto de avanço. A alta representante da UE para os Assuntos Exteriores, Kaja Kallas, qualificou a reabertura do valico como “um passo concreto e positivo no plano de paz”, acrescentando que “a missão civil da UE está no terreno para monitorar as operações de travessia”. A declaração, porém, omitiu menções diretas aos ataques israelenses nas áreas mais ao norte da Faixa.
Na mesma capital europeia, a comissária para a Gestão de Crises, Hadja Lahbib, apresentou o contraponto: “Condenamos as repetidas violações do cessar-fogo em Gaza, onde centenas foram mortos ou feridos durante o fim de semana pelos ataques israelenses”. A tensão entre a leitura diplomática otimista e a realidade humanitária no terreno ilustra a fragilidade dos alicerces da diplomacia em jogo.
O funcionamento do valico será, por ora, extremamente limitado: somente seis horas por dia, com um teto de 150 pessoas saindo e 50 entrando. Segundo o ministério da Saúde de Gaza, há cerca de 20 mil pacientes que necessitam de cuidados urgentes — um número que expõe a discrepância entre a intenção política e a capacidade real de resposta humanitária.
Outro capítulo desta complexa partida envolve Medici Senza Frontiere (MSF). As autoridades israelenses comunicaram que a ONG deverá encerrar suas operações na Faixa até 28 de fevereiro, invocando a falta de envio das listas de funcionários locais — um requisito imposto a todas as organizações humanitárias. Para a MSF, trata-se de uma imposição que força as organizações a escolher entre expor equipes ao risco ou interromper cuidados essenciais: “um pretexto para obstruir a assistência humanitária”, afirmam representantes da ONG.
Nos últimos meses, Israel proibiu operações a 37 organizações humanitárias na região e, segundo fontes, teria movido unilateralmente a chamada linha amarela prevista no plano de paz, preservando controle sobre 58% da Faixa de Gaza. Hoje, mais de 400 ex-diplomatas e altos funcionários europeus pediram à União Europeia maior pressão sobre Israel para pôr fim às “contínuas violações do direito internacional” em Gaza e na Cisjordânia.
À luz destes eventos, a reabertura parcial de Rafah aparece como um movimento táctico: um avanço visível no plano, mas insuficiente sem cessar-fogo estável, garantias humanitárias robustas e liberdade de atuação das organizações médicas. No grande tabuleiro regional, trata-se de um passo que pode redesenhar fronteiras de fato — ou se tornar apenas um gesto simbólico, se os alicerces da diplomacia continuarem frágeis e a tectônica de poder se mantiver inalterada.






















