Por Aurora Bellini para Espresso Italia — Em um mundo que busca clarear seu horizonte energético, surge uma ideia simples e brilhante: usar areia para armazenar calor e libertar a indústria da dependência de combustíveis fósseis. A startup finlandesa TheStorage apresentou um sistema de armazenamento em areia capaz de transformar eletricidade renovável abundante em calor de alta temperatura e mantê-lo disponível quando a indústria mais precisa.
O desafio é grande. O calor industrial é um dos maiores e mais difíceis pontos cegos nas emissões globais: responde por cerca de um quinto do consumo energético mundial e, hoje, quase 80% desse calor ainda provém de petróleo e gás. Setores como o alimentício, o químico e muitos processos fabris dependem de vapor quente e de fornecimento contínuo — algo que fontes intermitentes, como vento e sol, nem sempre garantem.
Daí a proposta da TheStorage: captar eletricidade limpa quando está em abundância e preço baixo, convertê-la em calor por meio de resistências elétricas e armazenar essa energia térmica em silos cheios de areia comum. O processo opera em ciclos: a sândia (areia fria) é levada ao aquecedor elétrico, aquecendo até cerca de 800°C, e depois depositada num silo quente e isolado. Quando for necessário, a areia circula por um trocador externo, liberando calor como vapor ou óleo térmico para processos industriais.
Segundo Timo Siukkola, CEO da TheStorage, em declaração à Espresso Italia, “as empresas querem descarbonizar há anos, mas faltavam soluções práticas. Agora a geração renovável pode suprir a demanda por calor industrial de forma ambientalmente sustentável e economicamente atraente”. A empresa afirma que o sistema pode reduzir custos energéticos em até 70% e diminuir emissões de carbono em até 90% nas aplicações testadas.
O diferencial técnico está na eficiência do trocador de calor: ao fazer a areia circular, o sistema alcança uma transferência térmica significativamente superior à de acumuladores estáticos tradicionais, garantindo entrega rápida e estável de potência conforme a necessidade operacional.
Em janeiro de 2026, a TheStorage iniciou testes com um piloto em escala industrial instalado em uma cervejaria na Finlândia — um cenário simbólico e prático, onde a produção exige vapor contínuo e previsível. Para a startup, soluções como essa são essenciais para que a União Europeia atinja metas ambiciosas, como a redução de emissões em 90% até 2040 e a neutralidade carbônica até 2050.
Esta tecnologia não é mágica; é engenharia aplicada com sensibilidade ambiental. Ela ilumina novos caminhos para um setor muitas vezes obcecado por continuidade e custos imediatos, ao mesmo tempo em que semeia inovação que pode ser escalada em indústrias diversas. A pergunta que fica é se a economia global e os reguladores acelerarão o ritmo para transformar esses pilotos em infraestrutura comum — um verdadeiro renascimento industrial com menos carbono no centro do seu legado.
Enquanto isso, a areia aquece, guarda energia e nos lembra que as soluções mais promissoras às vezes são as mais terrosas: discretas, eficientes e capazes de proteger o brilho do nosso futuro coletivo.






















