Viola Scaglione, diretora artística do Balletto Teatro di Torino, retorna ao centro do debate sobre a dança contemporânea ao assinar a curadoria da temporada Tensioni Temporanee, no Teatro Marenco de Novi Ligure. A companhia, fundada em 1979 e apoiada pelo Ministero della Cultura, pela Regione Piemonte e por fundações bancárias, encontrou sob a liderança de Scaglione, desde 2015, uma direção que privilegia a qualidade da pesquisa, a pluralidade de linguagens e o diálogo com públicos e territórios.
Em entrevista, Viola descreve a fórmula que estrutura a edição: um trio de coreografias distintas, articuladas como um pequeno percurso sensível. Essa escolha — realizada em estreita colaboração com a Fondazione Piemonte dal Vivo — pretende oferecer ao espectador não um salto abrupto entre peças, mas uma travessia progressiva, com uma respiração que se abre e se fecha, respeitando a autonomia poética de cada obra e, ao mesmo tempo, instaurando um diálogo entre elas.
“Quero construir noites que sejam mais do que simples acertos de agenda: quero mapas emocionais”, afirma Scaglione. Esse mapa se desenha num crescendo que é mais energético do que narrativo: a intensidade cresce como um fluxo visceral, onde a dança se apresenta como linguagem autônoma e poética, capaz de tocar diretamente a imaginação de quem olha. É a dança como língua primária, sem necessidade de tradução, um verdadeiro espelho do nosso tempo que reflete tensões coletivas e íntimas.
A cenografia segue essa mesma economia de recursos. Elementos mínimos — fumaça, cordas, anéis com neon intermitente — são usados como dispositivos poéticos que não competem com o corpo, mas o acompanham e o amplificam. “A cena não deve sobrepor-se à presença humana”, diz Scaglione. “Objetos simples, quando empregados com precisão, evocam espaços e estados interiores, e mantêm o intérprete como centro da experiência.” Essa opção remete à ideia de uma poética do corpo em que o gesto escapa ao ornamento e ganha densidade simbológica.
Para Scaglione, a dança contemporânea é uma disciplina hospitaleira: absorve e dialoga com outras linguagens — música, artes visuais, tecnologia — sem perder a singularidade do movimento. A sua prática curatorial também contempla residências artísticas, colaborações internacionais e projetos de difusão, com o objetivo de nutrir um ecossistema onde gerações diferentes se cruzam e aprendem umas com as outras. Em suma, a rassegna funciona como um laboratório público: um lugar de experimentação onde o público é convidado a sentir, antes de entender.
O efeito desejado é o de uma graça metamórfica: momentos de fricção que se transformam em imagens memoráveis — sequências que permanecem como cenas de um filme imaginário, uma semiótica do tempo presente. Em tempos em que o consumo rápido de imagens tende a reduzir a experiência estética, propostas como Tensioni Temporanee reclamam paciência e atenção, reinstaurando a dança como prática de resistência cultural e reflexão coletiva.
Enquanto a cena italiana segue reconfigurando seus mapas institucionais e estéticos, a curadoria de Scaglione lembra que a dança contemporânea pode ser tanto espelho quanto roteiro oculto: reflete nossas inquietações e ao mesmo tempo propõe formas de reescrever o viver comum. No Teatro Marenco, essa escrita acontece com discrição e contundência, em peças onde a economia de meios é paradoxalmente fértil — como se cada fio, cada anel de neon, cada sopro de fumaça traçasse um contorno íntimo do coletivo.
Para quem vai assistir, o convite é claro: abandonem a pressa. Deixem que a progressão sensorial os conduza. A noite se oferece como um pequeno rito de passagem, onde a dança, com sua gramática ancestral e experimental, oferece uma nova forma de ver o corpo e o tempo.





















