Trinta faixas, muita música e, sobretudo, um repertório marcado pelo amor e pelo relato dos afetos — inclusive aqueles que ficam escondidos e pedem para emergir. Nas audições antecipadas para a imprensa, Carlo Conti foi direto: o mais difícil foi escolher quais canções levar à Riviera. “Todo ano é como ir ao mercado e montar um buquê de flores”, explicou, lembrando que a intenção é construir um conjunto variegado, onde convivem do pop ao rock, do country ao rap, e cabe ao diretor artístico a seleção final.
Quem relata esse panorama com olhar atento é Fausto Pellegrini, enviado da Rainews24. O resultado é um festival que, mesmo na sua pluralidade sonora, parece desenhar um roteiro afetivo: canções que falam de promessas, memórias e de uma humanidade que insiste em não sair de moda.
O buquê de emoções — algumas faixas em destaque
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Uma balada confidencial — A abertura do repertório que ouvimos é uma declaração de amor com o coração nas mãos, uma carta dirigida à filha que soa como promessa de amor eterno. Musicalmente, aposta no sentimentalismo pop e na construção do texto como manifesto: uma lembrança de que a gentileza e a beleza humana ainda têm lugar na paisagem contemporânea.
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Malika Ayane — Animali notturni
Em “Animali notturni”, Malika propõe uma cartografia íntima: a noite como território de seres que se reconhecem e se escolhem. É uma canção que reafirma a coerência estética da artista — sempre fiel a si mesma por meio da diferença — e que, num momento de angústia coletiva, lembra que a leveza é resistência. Parte Leopardi, parte figura de um herói infantil que mira a lua: um refrão que convida ao voo. -
Sayf — Tu mi piaci tanto
Folk urbano com fala cantada, uma levada que quer ser entoada em grupo e não só escutada em fones. Entre slogan e narrativa, a letra evoca figuras e episódios da história recente — menções a Cannavaro, Berlusconi, episódios de Praça e o G8 de Gênova — sem levantar o dedo acusador. O resultado é uma peça que promove o reconhecimento coletivo: a história como lente para entender o presente. -
Patty Pravo — Opera
A veterana retorna ao palco do festival com uma canção que é mais gesto teatral do que hit radiofônico. “Opera” celebra a vida e a loucura de continuar, propondo um olhar para o futuro sem nostalgia sufocante. Com letra de Giovanni Caccamo, soa como uma declaração: participar é, para Patty, um ato de afirmação artística.
Esses exemplos ilustram a diversidade que compõe o mosaico de Sanremo 2026. Há canções que preferem a intimidade de uma balada, outras que reivindicam espaço para a memória coletiva, e ainda trabalhos que se posicionam entre a performance teatral e a canção de rádio. O festival, assim, funciona como um espelho do nosso tempo: reflete medos, desejos e um desejo persistente de afirmar humanidade em meio ao ruído.
Do ponto de vista estético, a curadoria — nas palavras de Conti, esse buquê cuidadosamente armado — mostra que o pop de hoje é plural. Não se trata apenas de acompanhar tendências, mas de entender o que cada artista traz de cena pessoal e histórica. Em Sanremo, a canção popular vira mapa afetivo e social: a semiótica do viral encontra a poética do íntimo.
Como observadora do cenário cultural, vejo no elenco de 2026 um convite ao reframe: olhar além das melodias pegajosas e interrogar o que essas histórias dizem sobre nossa época. O festival não é só espetáculo; é documento. E, como todo bom documento, nos pede leitura atenta.
Em resumo: Sanremo 2026 apresenta um repertório rico em nuances, onde o pop convive com tradições e experimentos. O desafio agora é transformar essas canções em performances que dialoguem com a plateia ao vivo — e, por que não, com a memória coletiva que elas têm o poder de moldar.





















