Por Chiara Lombardi — Em um movimento que soa como um reframe urgente do palco italiano, Sanremo 2026 responde às críticas de um festival monocórdio com uma mudança visível na escrita das canções. A análise das assinaturas dos 30 canções em competição revela uma escolha clara pela diversificação: 108 autores envolvidos, um painel bem mais diluído do que o observado em 2025.
Se no ano passado uma única autora — Federica Abbate — dominou a cartela assinando ou coassinando sete músicas, neste ano o protagonismo se espalha. O nome que aparece com maior frequência é o de Edwyn Roberts, presente em três faixas: “Animali Notturni” (Malika Ayane), “AI AI” (Dargen D’Amico) e “Voilà” (Elettra Lamborghini). Três assinaturas que representam, mais do que um pódio pessoal, a tentativa do festival de equilibrar a cadeia criativa.
Quem é Edwyn Roberts? Nascido em 1992, do contexto televisivo de Amici — onde foi quinto em 2013 —, Roberts migrou cedo do microfone para a caneta, construindo um currículo que funciona como um espelho da indústria contemporânea: autor de “Tutta l’Italia” (Gabry Ponte), coautor do vencedor “Fai rumore” (Diodato, 2020), e de hits para Il Volo, Ricchi e Poveri, além de participações em projetos de Laura Pausini (versão espanhola de “Simili”, indicada ao Grammy em 2017). Colaborações com Eros Ramazzotti, Paola Turci, Arisa, Francesco Renga e Dargen D’Amico completam o retrato de um roteirista musical versátil.
Enquanto Federica Abbate, figura emblemática do ano anterior, reduz sua presença a duas canções — “Per sempre Sì” (Sal Da Vinci) e “Male necessario” (Fedez & Marco Masini) —, outro conjunto de autores aparece com duas assinaturas cada, mostrando que a tendência é a cooperação pontual e não a hegemonia de uma única caneta. Entre eles estão Davide Petrella (com “I Romantici” de Tommaso Paradiso e “Labirinto” de Luchè), Stefano Tognini (Zef), que assina “Labirinto” e “Prima che” com Nayt, e Mattia Davì, autor de “Il meglio di me” (Francesco Renga) e “Naturale” (Leo Gassmann).
O mapa das colaborações também traz duplas criativas que se repetem: Federico Mercuri e Giordano Cremona trabalham juntos em “Animali Notturni” e em “Per sempre Sì”; Alessandro La Cava contribui para “Per sempre Sì” e “Male necessario”; Andrea Bonomo assina “Voilà” e a faixa de J-Ax, “Italia Starter Pack”. Esse ecossistema revela um festival que aposta menos no nome único e mais na tessitura coletiva — uma espécie de cenário de transformação onde a autoria se fragmenta para criar complexidade.
Curiosamente, num panorama dominado por coautorias, emergem duas exceções valorizadas como raridades modernas: duas canções foram escritas por uma única pessoa. Levante (Claudia Lagona) assina integralmente “Sei tu” e Giovanni Caccamo é o autor solo de “Opera”, interpretada por Patty Pravo. Essas peças solitárias funcionam como pequenos faróis: mostram que a canção individual ainda tem força simbólica, mas não é o centro do sistema que dita tendências.
O que esse novo quadro nos diz sobre o Festival de Sanremo e, mais amplamente, sobre a indústria musical italiana? Há um deslocamento perceptível do modelo de star-writer para uma cadeia mais distribuída: menos monocromia sonora, mais paleta de autores. Em termos culturais, é como se o festival preferisse agora refletir a pluralidade do público — um espelho do nosso tempo — em vez de consolidar um único roteiro criativo. Para quem observa com o olhar de crítica cultural, o que estamos vendo é o roteiro oculto da sociedade emergir nas credenciais de quem assina as músicas.
Sanremo 2026, portanto, não muda apenas o repertório: altera o modo como a música é produzida, compartilhada e — sobretudo — assinada. E isso tem consequências no som que chega ao rádio, nas narrativas que construiremos sobre identidade e memória sonora, e no mercado que negocia talentos. O festival, por ora, escolhe a multiplicidade; resta aos autores transformar essa pluralidade em coerência artística.






















