A trajetória de Gomorra – Le origini segue como um espelho do nosso tempo: o quinto episódio redesenha não apenas ruas, mas hierarquias e memórias. Em uma sequência que parece saída de um roteiro onde a cidade é personagem, Angelo conquista sua autonomia em relação aos Villa e assume o controlo absoluto de Secondigliano, numa mudança que redesenha a fronteira entre bairros e destinos.
A ruptura é mediada por Don Corrado Arena, figura que aceita o acordo com relutância — não por falta de cálculo, mas por princípio: foi ele quem prometera que a heroína não entraria em Nápoles. Os franceses, porém, romperam o pacto, e a balança do poder oscilou para quem tinha coragem e agressividade para preencher o vácuo. O resultado é uma recomposição geográfica do crime, onde Secondigliano passa a reivindicar existência própria, separando-se de Forcella e voltando a administrar a bisca local.
No plano íntimo, o episódio avança em linhas igualmente tensas. Imma confessa a Pietro o que fez, e a revelação ecoa como um reframe da culpa: a mãe de Pietro, ao descobrir o ato do filho, faz a Angelo um pedido doloroso, uma exigência que atinge Pietro no âmago. É um momento em que a trama pessoal se entrelaça ao império do crime, lembrando que os rituais de poder sempre têm um espelho humano.
Anna, por sua vez, tenta negociar com os chefes de Nápoles, sem obter o efeito desejado. Apenas os Villa respondem — e, como em um contrato de cena, querem algo em troca. Essa troca reforça o roteiro oculto que governa a narrativa: acordos são assinados, territórios renomeados, e as lealdades são reavaliadas em função do lucro e da sobrevivência.
O gesto final de Angelo é emblemático: exigir que Secondigliano seja reconhecido como rione independente e a retomada da bisca é um movimento para institucionalizar a sua autoridade. Don Antonio aceita, mas impõe uma clausula simbólica e prática: não poderão mais pisar em Nápoles. A condição é ao mesmo tempo expulsiva e reveladora — um castigo que também é concessão.
Como observadora cultural, vejo nesse episódio de Gomorra – Le origini mais do que uma guerra por território. Vejo o roteiro de uma cidade em transformação, a semiótica do viral em que pactos internacionais (no caso, a quebra por parte dos franceses) reverberam na rua, e a memória coletiva é reescrita pelas decisões de poucos. É a cena de um teatro urbano onde cada esquina conta uma história de poder, lealdade e custo emocional.
Para os espectadores, a cena exibida na clip anexa a este artigo é apenas um fragmento — mas um fragmento que confirma a ambição da série: mostrar como a criminalidade redesenha mapas sociais e identitários. Disponível no quinto episódio de Gomorra – Le origini, em exibição exclusiva na Sky e em streaming no NOW desde sexta-feira, 30 de janeiro, e sempre disponível on demand.






















