Um grande painel projeta o mesmo panorama em dois instantes do dia: o cornicione de uma varanda recorta, lá no alto, a extensão do mar que se abre sobre uma cidadezinha — a vista que Franco Battiato contemplava de Villa Grazia, sua última morada em Milo, às encostas do Etna. A placa descreve: “Meditazione all’alba e al tramonto”. Essa imagem inaugura a mostra que se abre no MAXXI de Roma e fica em cartaz até 26 de abril: “Franco Battiato. Un’altra vita”.
Organizada em forma de rapsódia memorial, a exposição reúne documentos, fotografias, livros, pinturas, objetos pessoais, filmagens e memorabilia — um arquivo vivo que trai a polifonia de interesses do compositor, pintor e cineasta. A mostra é coproduzida pelo Ministério da Cultura e pelo MAXXI, organizada por C.O.R. de Alessandro Nicosia e curada por Giorgio Calcara junto com Grazia Cristina Battiato, neta do artista. À abertura, a voz de Grazia, interrompida pela emoção, lembra o tio como “generoso, pleno de amor pelos outros, com um olhar puro como de criança no corpo de um adulto”. Ela recorda que ele rejeitava o rótulo de “Maestro”, preferindo a normalidade que convivia com uma espiritualidade profunda.
O percurso da mostra está dividido em sete seções — um espelho literal e simbólico das “sete vidas” criativas de Battiato. Começa nos anos 1960, quando ele deixa a Sicília e desembarca em Milão: fotos magras, os grandes óculos, poses diante da Galleria, as primeiras sessões em estúdio e os 45 rpm assinados com o nome de nascimento, Francesco, sugestão de Giorgio Gaber. Daí se vê com clareza o movimento que marcará sua trajetória: a virada da acústica para a eletrônica nos anos 1970 — álbuns como Fetus, Pollution e Sulle corde di Aries — onde Battiato se situa como pioneiro da música eletrônica italiana, inspirado por figuras como John Cage e Stockhausen.
Os objetos pessoais contam outras histórias: discos, cartazes (há um cartaz de 1981 anunciando um grande réveillon com “Franco Battiato e i Gufi” no Teatro Tenda de Lampugnano), sintetizadores que testemunham suas experimentações sonoras e um paravento com tapetes orientais trazidos de viagens que o fascinaram. Os elementos orientais não são meros adereços — são pistas para entender sua curiosidade incessante pela tradição mística e pelas estéticas não-ocidentais.
Os anos 1980, como bem nos lembra a curadoria, apontam para o sucesso pop: Battiato torna-se figura de massa sem que abdique da densidade conceitual. Pintura, direção de cinema, escrita — sua carreira se desdobra em linguagens múltiplas. Em consonância com a exposição, um filme evocativo, Un lungo viaggio, entra em cartaz de 2 a 4 de fevereiro, ecoando a narrativa biográfica e oferecendo ao público um outro plano para experienciar sua obra.
Visitar “Franco Battiato. Un’altra vita” é entrar num set onde o passado e o presente se misturam, como numa cena projetada que refrata lembrança e legado. A mostra não apenas preserva objetos; ela reconstrói um roteiro oculto — o modo pelo qual um artista traduziu fascinações orientais, experimentação eletrônica e uma espiritualidade discreta em canções que são hoje parte do imaginário italiano e além.
Ao sair, permanece a sensação de ter assistido a uma obra composta em capítulos e camadas: um eco cultural que nos convida a reconsiderar a música popular como arquivo de memórias e como espelho do nosso tempo. Battiato, cuja voz ainda reverbera, é aqui retratado não como mito intocável, mas como um interlocutor íntimo, que preferia fechar uma noite com os amigos vendo um filme — zapping incluído — e partilhar a mesa, por mais que comesse “como um passarinho”.
Endereço e datas: MAXXI, Roma — exposição até 26 de abril. Filme Un lungo viaggio em salas de cinema de 2 a 4 de fevereiro.






















