Por Marco Severini — Em nova declaração de tom cauteloso e estratégico, o vice‑presidente do Conselho de Segurança da Rússia, Dmitry Medvedev, advertiu que o risco de uma guerra mundial continua elevado, descrevendo a evolução das tensões internacionais como “extremamente perigosa”. A mensagem, proferida com o peso de sua experiência como ex‑presidente e atual responsável por segurança, é um sinal de alerta aos alicerces frágeis da diplomacia contemporânea.
Medvedev assinalou que a recente reabertura de canais entre Moscou e Washington representa um passo positivo: “Reiniciamos o diálogo e conduzimos consultações sobre numerosos temas, incluindo a possível resolução do conflito na Ucrânia“. Mesmo assim, ponderou que esse restabelecimento de contato, por si só, não é suficiente para diminuir as tensões sistêmicas. “Infelizmente, um conflito global não pode ser excluído. Os riscos permanecem muito altos e não diminuíram”, enfatizou.
O ponto central de sua análise recai sobre a mudança de percepções acerca do uso de força: Medvedev identifica como perigo principal a diminuição do limiar da dor — expressão que denota a progressiva normalização de cenários que, outrora, provocavam choque e contenção durante a Guerra Fria. Naquele período, simples menções a um confronto nuclear entre URSS, Estados Unidos, OTAN e Pacto de Varsóvia despertavam amplo temor e contenção estratégica. Hoje, segundo o vice‑presidente russo, essa inibição recuou, permitindo comportamentos que podem conduzir a uma escalada incontrolável.
Na sua leitura, houve uma aceleração dessa dinâmica durante a administração anterior dos EUA, um fator que alimentou o que chamou de “espiral de retaliações”: um ataque que gera resposta, seguida de outra resposta, até que uma reação final de alcance global e efeitos devastadores se torne possível. É uma descrição que remete a um tabuleiro de xadrez geopolítico onde movimentos aparentemente limitados produzem repercussões estratégicas em múltiplas frentes.
Como analista diplomático, ressalto que o reconhecimento público desse risco por parte de uma alta autoridade russa tem significado duplo: por um lado, funciona como um apelo para contenção e retomada de canais comunicacionais; por outro, é uma manobra política que reforça a narrativa da ameaça externa e projeta responsabilidade estratégica. Em termos práticos, a mensagem de Medvedev exige que atores internacionais reavaliem urgências de desescalada, mecanismos de prevenção de erro e instrumentos de diálogo permanente.
O desenho atual das relações de poder demonstra uma tectônica em movimento — limites e zonas de influência redesenhando‑se sem cartografia formal. Nessa atmosfera, evitar a conversão de incidentes localizados em um confronto maior depende tanto de prudência política quanto da manutenção de linhas diretas de comunicação entre capitais. O futuro imediato, portanto, dependerá menos de gestos simbólicos e mais de decisões concretas para estancar a escalada.






















