Por Chiara Lombardi — Na véspera dos seus 80 anos, Mauro Pagani abre o arquivo de memórias em um diálogo que parece a montagem de um roteiro íntimo: há riscos, reviravoltas e, sobretudo, um retorno. O músico que atravessou a cena italiana — da Pfm às colaborações com Fabrizio De André — é agora protagonista do documentário de Cristiana Mainardi Andando dove non so. Mauro Pagani, una vita da fuggiasco, em exibição nos cinemas nos dias 16, 17 e 18 de fevereiro.
“Sempre fiz escolhas com uma boa dose de incoscienza”, admite Pagani com a leveza de quem reconhece os saltos de seu próprio roteiro. Mas foi uma queda grave, há cerca de cinco anos, que reconstruiu outro ato: “Quando estive doente, vi pessoas que já não falavam mais — e eu pensei que poderia ser o fim. Fui salvo no hospital e, gradualmente, recuperei muitas funções. Sinto que me deram uma segunda oportunidade”. Ao falar da recuperação, ele não omite a presença central de Silvia Posa, sua companheira, que permaneceu “dia e noite” ao seu lado durante um mês e meio no leito hospitalar.
O filme traça esse percurso de renascença e também retorna às origens: filho único, criança quase perdida para a difteria aos seis anos, protegido por pais que o criaram sob uma espécie de “campana de vidro”. Sua salvação priomária foi a leitura e a música — o pai na banda da vila o levou ao violino e ao flauta, gestos que desenharam o primeiro cenário de sua vida artística.
A trajetória pública começa em um coletivo de práticas e ideias: uma comuna de tradutores na tumultuada Milão dos anos 1970, onde a convivência com pessoas politicamente engajadas o ajudou a amadurecer. E então veio a Pfm. Hoje, ao ouvir novamente Impressioni di Settembre, Pagani se emociona: “É uma canção que está sempre completa — evoca as paisagens do Bresciano onde cresci, lembranças de um mundo sem eletricidade, quase cinematográfico, como em L’albero degli zoccoli”.
Por trás dos êxitos houve também crises. Ele recorda uma depressão nos anos 1970, quando a desilusão política e cultural o levou a perceber que o mundo idealizado não se realizaria como sonhara: “Naquela manhã de 1972 percebi que o mundo melhor que eu havia imaginado não existiria. Entrei em crise; a leitura me ajudou a encontrar um novo equilíbrio”. Essa busca pessoal explicita um gesto decisivo: sair da banda no auge. “No prog havia um excesso de notas: dávamos demasiada coisa, tocávamos sobre nós mesmos. Eu queria o essencial”, conta. O recuo foi, nas suas palavras, mais uma expressão daquela mesma incoscienza criativa que guiou sua vida.
Outro capítulo do documentário — e da própria biografia — é a relação com figuras como Fabrizio De André. “Foi um grande amigo, cheio de dúvidas. Bebia, embora dissesse que não gostava disso”, diz Pagani, traçando um retrato humano e complexo do poeta-cantor. Virgulas do destino aparecem também na conversa sobre Ornella Vanoni: ele lembra a sensibilidade da cantora, que sentia que seu fim se aproximava — um pressentimento que fala da intuição íntima dos artistas.
Além dos laços pessoais, o documentário percorre as paixões sonoras que moldaram sua carreira: um interesse forte pela música do mundo — do yodel às tradições africanas — e a busca por uma sonoridade essencial que o levou a montar estúdios e a experimentar arranjos mínimos e potentes. Pagani aparece, assim, não apenas como músico, mas como um artesão do som que sempre preferiu o risco à segurança, a elegância da experiência ao conforto do sucesso previsível.
Ao completar 80 anos, ele confessa gratidão: “Sou feliz por estar vivo”. A sensação é a de quem olha para uma carreira e uma vida como uma película complexa, cujos quadros se conectam — a infância isolada, a comuna em Milão, a Pfm, as colaborações e a quase perda — para compor um retrato que é, ao mesmo tempo, pessoal e emblemático. Em linguagem de cinefilia, a vida de Pagani funciona como um espelho do nosso tempo: um roteiro não linear que nos lembra que o legado cultural se constrói nos recuos, nas dúvidas e nas segundas chances.
O documentário promete traduzir essa narrativa em imagens e sons, convidando-nos a revisitar a obra e as escolhas de um músico que sempre preferiu “andar onde não sabe” — e que, justamente por isso, se tornou referência de quem entendeu a música como experiência do mundo.






















