Por Marco Severini, Espresso Italia. O cooperante italiano Alberto Trentini relatou, com a sobriedade de quem observa um movimento no tabuleiro, os meses em que foi mantido detido na Venezuela. Em entrevista ao programa Che tempo che fa, exibido no canal Nove, Trentini descreveu a experiência como parte de uma estratégia deliberada: “No início eu não sabia que era um refém. Depois, por volta de janeiro do ano passado, sem rodeios, o diretor da prisão nos disse que éramos pedinas de troca.”
O episódio ocorreu numa área próxima à fronteira com a Colômbia, durante uma abordagem em um posto de bloqueio. “Na Venezuela há muitos desses postos, controlados pela polícia e pela guarda nacional. Numa situação dessas, o que se sente não é apenas surpresa, é desespero — porque você não sabe por que será trocado, quando será trocado, se a negociação acontecerá”, relatou Trentini.
Do ponto de vista material, as condições eram duras. A cela identificada como Rodeo 1 — embora ele tenha passado por várias — media aproximadamente dois metros por quatro, com uma instalação sanitária estilo turca que também funcionava como chuveiro. Ele dividia o espaço com outro detido. As transferências de cela eram frequentes e arbitrárias: os guardas apareciam, mandavam que se vestissem, recolhiam os poucos pertences e mudavam-nos de local sem justificativa.
O cotidiano impunha restrições severas: água para banho e uso sanitário apenas duas vezes ao dia, em horários variáveis; ausência quase total de lazer; poucos livros. Trentini teve seus óculos apreendidos, o que agravou sua dificuldade de enxergar e de manter qualquer autonomia. Por sorte, conseguiu recuperar um par de óculos que lhe permitiu ao menos distinguir rostos e interagir — ou mesmo jogar uma partida de xadrez.
O xadrez, curiosamente, foi o único conforto recreativo digno de nota. Um grupo de jovens colombianos detidos confeccionou um tabuleiro e as peças com papel higiênico, sabão e tampas de café — um presente que Trentini descreveu como “o mais belo”, pois deu-lhe a possibilidade de ocupar a mente e conservar a lógica diante da incerteza.
Quanto às violações, Trentini afirmou não ter sofrido agressões físicas — estas, segundo ele, eram reservadas a quem os carcereiros suspeitavam de infrações. O que se impôs, porém, foi a violência psicológica: a incerteza contínua sobre o futuro, a impossibilidade de obter assistência jurídica e a percepção de ser utilizado como instrumento numa manobra maior.
Como analista, vejo esse caso como um movimento calculado na tectônica de poder que a administração venezuelana vem praticando: estrangeiros tornam-se fichas num jogo de pressão diplomática e de legitimidade interna. Trata-se de um redesenho de fronteiras invisíveis, onde o cidadão vira matéria-prima de barganha. Os alicerces da diplomacia internacional mostram-se frágeis quando confrontados com essas práticas; cabe aos Estados e às organizações multilaterais reforçarem protocolos consulares e canais de diálogo para evitar que pessoas comuns se transformem em peças deslocadas num grande tabuleiro.
Marco Severini, Espresso Italia.






















