Alberto Trentini, em entrevista ao programa Che Tempo che fa no canal Nove, descreveu com precisão grave os 423 dias em que permaneceu detido na Venezuela sem assistência jurídica e sem clareza sobre as acusações. O testemunho, carregado de detalhes logísticos e psicológicos, desenha um quadro onde a detenção aparece menos como uma sanção legal e mais como um movimento calculado num tabuleiro de poder.
Segundo Trentini, o momento em que a administração penitenciária lhe revelou, sem rodeios, que ele e outros prisioneiros eram “peças de troca” ocorreu por volta de janeiro do ano anterior. O diretor da prisão teria feito a declaração a pelo menos três detentos, que depois transmitiram a informação a Trentini. A constatação da natureza instrumental da detenção alterou o sentido do confinamento: deixou de ser um processo jurídico individual para assumir caráter de manobra diplomático-estratégica.
O relato aponta procedimentos irregulares: não houve convalidação formal do arresto e dezenas de estrangeiros — Trentini refere o número de 92 — estavam agrupados nos mesmos pavilhões, com histórias semelhantes de apreensão, algumas até durante trânsito aeroportuário em Caracas. Trentini foi detido em uma zona próxima à fronteira com a Colômbia, em um posto de bloqueio fixo.
“A sensação é de desespero”, disse ele, descrevendo a incerteza sobre quando, como e se uma negociação seria concluída. Passados seis meses, obteve apenas uma primeira ligação para casa, de cinco minutos. Segundo o relato, não sofreu violência física pessoalmente, embora saiba de casos de agressões aplicadas a outros detentos; o que vivenciou, de forma constante, foram as violências psicológicas: a marcação dos dias nas paredes, o esforço por manter uma referência temporal mesmo sem saber quando seriam celebrações como a Páscoa.
O episódio inicial de detenção envolveu atenção aos seus documentos: ao verem o passaporte, agentes solicitaram que ele não se retirasse, efetuaram telefonemas e, em seguida, apareceu a estrutura de contraespionagem militar. Foi obrigado a entregar o celular e submetido a um interrogatório prolongado de cerca de quatro horas.
Dois dias após a prisão, Trentini conta que foi levado a uma casa em Caracas, onde permaneceu com os olhos vendados e algemado por algumas horas. Depois, conduzido a uma sala extremamente quente, foi submetido a perguntas insistentes sobre terrorismo e espionagem, sobretudo reforçando a surpresa pela sua formação acadêmica — ele é graduado em História. Nesse ambiente, descreve a aplicação de um polígrafo com sensores e a tentativa deliberada de provocar nervosismo, enquanto os interrogadores buscavam construir uma narrativa que justificasse o cárcere diante do aparato do Estado.
Antes de ser encaminhado ao presídio conhecido como Rodeo 1, passou pela experiência da chamada “Vasca” ou “Acquario” nas instalações centrais da contraespionagem: uma sala com um vidro — onde se enxerga para dentro, mas não para fora — onde ficou sentado das seis da manhã às nove da noite por cerca de dez dias. Ao entrar havia cerca de 20 pessoas; ao sair, eram 60. O ambiente, relata, impedia a comunicação e transformava a espera em um exercício de resistência psicológica.
O testemunho de Trentini é, em termos estratégicos, a peça de um quebra-cabeça maior: sugere uma prática de detenção que funciona como instrumento de barganha e pressão, um movimento ensaiado nas bordas da diplomacia e da segurança estatal. Para quem observa o teatro geopolítico com olhos de enxadrista, trata-se de um movimento que redesenha, temporariamente, fronteiras invisíveis entre direito individual e cálculo de influência.
Como analista, subscrevo que episódios assim devem ser situados na tectônica mais ampla das relações entre Estados e das prioridades de segurança interna: onde a arquitetura institucional é frágil, a detenção pode ser convertida em moeda de troca, e os alicerces da diplomacia — que deveriam proteger cidadania e processo — se mostram vulneráveis.
Este relato público, vindo de quem viveu os dias de clausura, acrescenta um testemunho relevante ao debate sobre direitos humanos, processo legal e o uso de prisões como alavanca em disputas de influência. Resta à comunidade internacional e às redes diplomáticas calibrar respostas que preservem a dignidade individual sem sacrificar a estabilidade do sistema.






















