Teerã — Em um pronunciamento grave e cerimonial diante de milhares, a Guia Suprema do Irã, Ali Khamenei, lançou um aviso direto aos EUA: qualquer ataque contra a República Islâmica teria consequências muito além de um confronto limitado e se converteria em uma guerra regional. A declaração foi proferida durante um comício para marcar o retorno histórico de Ruhollah Khomeini, ocasião em que a retórica política assume contornos de estratégia.
Na sua fala, Khamenei frisou que o Irã não pretende iniciar hostilidades, mas que não hesitará em “infligir um duro golpe a quem o ataque”. Esta postura acontece num momento de crescimento das tensões navais: os EUA posicionaram uma considerável força marítima nas proximidades das águas iranianas, no Estreito e no Golfo Pérsico, e têm mantido a pressão em torno do impasse sobre o programa nuclear iraniano.
O tom da mensagem combina desassossego e cálculo: Khamenei traça, com a precisão de um enxadrista, o contorno de uma resposta que não se limita ao solo iraniano, mas que poderia mobilizar atores e frentes regionais — um deslocamento estratégico que altera a tectônica de poder no tabuleiro do Oriente Médio. Tal advertência objetiva ao mesmo tempo dissuadir e consolidar a narrativa interna sobre soberania e resistência a influências externas.
Além da ameaça de retaliação em caso de agressão externa, a Guia Suprema qualificou os recentes protestos antigovernamentais como uma tentativa de golpe de Estado. Segundo Khamenei, manifestantes atacaram a polícia, prédios públicos, quartéis da Guarda Revolucionária, bancos e mesquitas, chegando a queimar o Alcorão. Para ele, tratou-se de um plano que mirava a derrubada do regime — um plano que, na sua avaliação, fracassou.
Reconhecendo a possibilidade de novas manifestações, Khamenei admitiu que episódios semelhantes podem repetir-se no futuro, mas usou esse reconhecimento para reforçar uma tônica de unidade e vigilância interna. Em sua narrativa, os EUA ambicionam recriar mecanismos de influência sobre o Irã semelhantes aos que existiram durante a monarquia — um controle sobre recursos, petróleo e decisões políticas que, segundo ele, fora perdido com a revolução.
Do ponto de vista da geopolítica prática, a mensagem tem dupla finalidade: celebrar coesão interna perante um público nacional e enviar um sinal claro às capitais externas de que qualquer movimento militar contra Teerã pode provocar um efeito dominó. Na linguagem da cartografia das estratégias, trata-se de um redesenho de fronteiras invisíveis — um movimento que pode alargar linhas de conflito para além de um hipotético ataque pontual.
Como analista, observo que os episódios descritos compõem uma conjuntura volátil em que a diplomacia se sustenta sobre alicerces frágeis. A atitude de Khamenei revela a combinação de retórica defensiva e de contenção estratégica: um xeque-mate implícito que procura dissuadir o adversário e preservar a estabilidade interna, ainda que por meio de uma postura intransigente.
Marco Severini — Espresso Italia






















