Por Marco Severini, Espresso Italia. Em um movimento que altera mais uma peça no tabuleiro geopolítico cultural do Irã, Mehdi Mahmoudian, co‑roteirista do filme de Jafar Panahi ‘Um Simples Acidente’ — projeto indicado ao Oscar — foi detido ontem em Teerã. A prisão, relatada pelo Hollywood Reporter e confirmada por relatos subsequentes, decorre da assinatura de uma declaração pública que responsabiliza a liderança suprema do país, o aiatolá Ali Khamenei, pela repressão violenta das recentes manifestações.
Segundo o distribuidor estadunidense Neon, Mahmoudian foi detido juntamente com outros dois signatários entre os dezessete que subscreveram o apelo, os ativistas Vida Rabbanie e Abdullah Momeni. Entre os nomes notórios que aparecem na carta estão o próprio Jafar Panahi — atualmente fora do país em compromissos de divulgação do filme — e o cineasta Mohammad Rasoulof, autor do candidato iraniano ao Oscar 2025 ‘A Semente do Figo Sagrado’, hoje exilado na Alemanha. Também assinaram a petição figuras reconhecidas internacionalmente, como a prêmio Nobel da Paz Narges Mohammadi e a advogada Nasrin Sotoudeh, laureada com o Prêmio Sakharov.
No texto do apelo os signatários acusam diretamente Khamenei de ter autorizado ‘o assassinato em massa e sistemático de cidadãos’. O Estado iraniano reconheceu mais de 3.000 mortos nas recentes ações repressivas, enquanto organizações de direitos humanos estimam cifras muito superiores, na ordem de dezenas de milhares — um abismo numérico que traduz a profundidade da crise política e humanitária em curso.
Em declaração à imprensa, Panahi relatou que manteve contato com Mahmoudian cerca de 48 horas antes da prisão: falaram por telefone e trocaram mensagens; o último envio do diretor ocorreu às 4h da manhã. Ao meio‑dia do dia seguinte, a ausência de resposta despertou preocupação e levou o cineasta a verificar com amigos comuns — sem sucesso. Horas depois, a BBC noticiou a detenção.
O vínculo entre o diretor e o roteirista remonta a um tempo partilhado atrás das grades: ambos chegaram a se conhecer em períodos de encarceramento. Panahi descreveu Mahmoudian como pessoa de temperamento sereno, cortês e dotada de um sentido excepcional de responsabilidade para com os demais. ‘Ele se tornou um pilar silencioso dentro da prisão, alguém em quem detentos de qualquer credo e procedência confiavam’, disse Panahi, traçando um retrato que conjuga integridade pessoal e liderança moral.
Do ponto de vista estratégico, a detenção de um nome ligado ao circuito internacional do cinema — e cujas obras transitam em festivais e plataformas globais — não é apenas uma ação de repressão interna; é um gesto deliberado na tectônica de poder entre o regime e a sociedade civil. Ao calibrar repressão e espetáculo, as autoridades redesenham fronteiras invisíveis entre arte e dissidência, buscando desmobilizar redes de solidariedade nacional e transnacional.
Para a comunidade cinematográfica global e para diplomatas culturais, trata‑se de um alerta: a arte como território de contestação continua a ser considerada um risco político. A prisão de Mehdi Mahmoudian evidencia que os alicerces da diplomacia cultural estão frágeis, e que movimentos simbólicos — uma assinatura, um manifesto público — podem provocar respostas duras do Estado. No tabuleiro do poder, cada movimento público de intelectuais e artistas é observado, avaliado e, quando necessário para o regime, punido.
Enquanto o incidente reverbera em festivais, circuitos de exibição e nas redes de defesa de direitos humanos, os observadores diplomáticos deverão monitorar as consequências: repressão ampliada, novas ondas de exílio de criadores, e o impacto sobre a circulação de obras iranianas em mercados ocidentais. Em termos de estabilidade regional e de imagem internacional do Irã, a aposta do regime em contenção violenta pode sair cara — uma pressão que reconfigura, lentamente, o mapa de influências e alianças culturalmente estratégicas.
Em suma, a prisão de Mehdi Mahmoudian é mais que um episódio isolado: é um movimento decisivo no tabuleiro da dissidência cultural iraniana. Resta observar como o cinema, patrimônio simbólico e diplomático, responderá a esse aperto de cerco.






















