Por Marco Severini, Espresso Italia — Em Los Angeles, a 68ª cerimônia do Grammy delineou movimentos significativos no tabuleiro cultural global. A premiação consagrou artistas que reforçam e redesenham eixos de influência — culturais e comerciais — em escala planetária.
Entre os vencedores, sobressai-se a vitória histórica de Bad Bunny, que recebeu o prêmio de Álbum do Ano por “Debi Tirar Mas Fotos“, tornando-se o primeiro artista a conquistar essa categoria com uma obra em língua espanhola. O triunfo de Bad Bunny, que também levou outros prêmios, representa um movimento decisivo no xadrez da indústria musical: a hispanofonia avança como força hegemônica de consumo e narrativa cultural.
Em contraponto, o domínio técnico e artístico de Kendrick Lamar foi ratificado com cinco estatuetas, incluindo a prestigiada Gravação do Ano por “Luther“, interpretada com SZA. A vitória de Kendrick reafirma seu papel como peça-chave no lado mais influente e crítico do rap contemporâneo, consolidando alicerces frágeis da diplomacia cultural entre arte e comentário social.
Segue a relação das principais categorias e seus laureados:
- Álbum do Ano: “Debi Tirar Mas Fotos” — Bad Bunny.
- Gravação do Ano (reconhecimento à performance): “Luther” — Kendrick Lamar com SZA.
- Canção do Ano (reconhecimento à composição): “Wildflower” — Billie Eilish O’Connell & Finneas O’Connell (intérprete: Billie Eilish).
- Melhor Artista Revelação: Olivia Dean.
- Melhor Performance Pop Solo: “Messy” — Lola Young.
- Melhor Performance Pop em Duo ou Grupo: “Defying Gravity” — Cynthia Erivo & Ariana Grande.
- Melhor Álbum Pop Vocal: “Mayhem” — Lady Gaga.
- Melhor Álbum de Rap: “GNX” — Kendrick Lamar.
- Melhor Performance de Rap: “Chains & Whips” — Clipse (Pusha T & Malice), com Kendrick Lamar & Pharrell Williams.
- Melhor Vídeo Musical: “Anxiety” — Doechii.
- Melhor Álbum de Música Urbana: “Debi Tirar Mas Fotos” — Bad Bunny.
- Melhor Performance Musical Global: “Eoo” — Bad Bunny.
- Melhor Álbum de Música Global: “Caetano e Bethania Ao Vivo” — Caetano Veloso e Maria Bethânia.
- Melhor Canção Escrita para Mídia Visual: “Golden” — da série/obra “KPop Demon Hunters“.
Do ponto de vista geopolítico-cultural, há duas leituras estratégicas imediatas. Primeiro, a vitória do álbum em espanhol evidencia um redesenho de fronteiras invisíveis no mercado musical: língua deixa de ser barreira, tornando-se vetor de soft power. Segundo, o acúmulo de prêmios por Kendrick Lamar reafirma a centralidade do rap como espaço de influência intelectual e político, capaz de moldar agendas e narrativas sociais.
Como analista, observo que essas decisões do Grammy funcionam como jogadas num tabuleiro de xadrez: algumas são movimentos preventivos, outras são ataques coordenados para solidificar posições de mercado e prestígio. A arquitetura simbólica das premiações consolida lideranças culturais, ao mesmo tempo em que expõe fraturas — por exemplo, na representação regional dentro das categorias globais.
Em síntese: a 68ª edição do Grammy confirmou hegemonias emergentes e reforçou legados artísticos. O panorama que se desenha é de uma tectônica de poder onde línguas, mercados e estéticas reposicionam-se em nova geografia de influência.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica cultural na Espresso Italia. Esta cobertura combina relatório factual e interpretação estratégica dos desdobramentos da cerimônia.






















