Na 68ª edição dos Grammy realizada na Crypto.com Arena de Los Angeles, o que poderia ser apenas uma celebração da excelência musical converteu-se num palco de denúncia e memória coletiva. A cerimônia misturou aplausos e indignação, transformando discursos de agradecimento em manifestações públicas contra as políticas migratórias que, nas últimas semanas, tiveram desdobramentos trágicos, incluindo a morte de duas pessoas em Minnesota em ações envolvendo agentes do ICE.
O tom político já era percebido no tapete vermelho, mas explodiu quando os vencedores subiram ao palco. O prêmio de Canção do Ano foi para Billie Eilish com “Wildflower“. Ao receber a estatueta, Billie utilizou o microfone como um espelho do nosso tempo: lembrou a história dos povos originários — “ninguém é ilegal em uma terra roubada” — e fez um apelo ao envolvimento cívico. “Precisamos continuar lutando, fazer nossa voz ser ouvida. Nossas vozes contam, as pessoas contam”, afirmou, recebendo uma ovação que ecoou pela arena.
A vitória de Bad Bunny foi talvez o momento mais simbólico da noite. O artista porto-riquenho ganhou o prêmio de Melhor Álbum Urban com “Debí Tirar Más Fotos” e usou seu espaço para um posicionamento direto: “Tirem o ICE de circulação”. Com firmeza, declarou: “Não somos selvagens. Não somos animais. Não somos estrangeiros. Somos humanos e somos americanos”, convocando a plateia a resistir ao discurso de ódio.
O feito artístico de Bad Bunny tem também peso histórico: é o primeiro cantor a conquistar um prêmio majoritário com um álbum em espanhol nessa escala, rompendo barreiras linguísticas e ressignificando a presença latina no cânone pop norte-americano. O disco, que resgata ritmos tradicionais de Porto Rico, foi interpretado por ele como um reframe da memória colonial da ilha desde 1898.
Há ainda ecos dessa mesma sensibilidade em outras falas. Gloria Estefan, ao celebrar seu quinto Grammy pelo Melhor Álbum Latin Tropical, confessou não se reconhecer mais no próprio país e conclamou latino-americanos a erguerem sua voz contra políticas que considerou “desumanas”. A cantora traduz, com a autoridade de quem atravessou décadas de trânsito cultural, o desconforto de uma identidade que se vê marginalizada.
Entre os premiados, Kehlani foi reconhecida pela Melhor Performance R&B com “Folded“; a cantora subiu ao palco com uma insígnia “ICE Out” e pediu unidade ao ecossistema de artistas. Shaboozey, vencedor na categoria country de banda por “Amen”, dedicou o troféu às imigrantes “que literalmente construíram este país”.
O anfitrião Trevor Noah não deixou de alfinetar o presidente Trump com seu humor cortante: “Todo artista quer ganhar um Grammy tanto quanto Trump quer a Groenlândia”, brincou, numa referência que funde sátira política e cultura pop — o tipo de comentário que revela as fraturas do debate público.
Mais do que um inventário de vencedores, a noite dos Grammy expôs o roteiro oculto de uma sociedade em tensão. A cerimônia foi, ao mesmo tempo, celebração estética e balanço de forças: artistas transformaram a visibilidade do palco num instrumento de denúncia, evocando memórias coloniais, identidades latinas e a urgência dos direitos humanos. Como um espelho do nosso tempo, o evento lembrou que, para além da música, cada discurso público desenha o mapa emocional de uma era.




















