Por Marco Severini — A poucas semanas do quarto aniversário da guerra, quando o gelo já paralisa uma Ucrânia exaurida, o tabuleiro diplomático segue fragmentado entre avanços anunciados e contratempos. Enquanto o governo de Zelensky indicou novas datas para as conversações trilaterais, os ataques russos persistem: um raid com drone atingiu um ônibus com trabalhadores e deixou pelo menos 15 mortos.
O episódio mais sanguinário nas últimas horas ocorreu na região de Dnipropetrovsk, no distrito de Pavlograd: um ônibus que transportava mineiros da empresa DTEK foi atingido por um ataque, segundo autoridades locais, matando 15 pessoas. Trata‑se do terceiro ataque a um ônibus em dias recentes — uma linha de ação que sugere, na análise estratégica, a intenção de Moscou de desorganizar os fluxos logísticos internos e minar os corredores de mobilidade que ainda mantêm o país “vivo” em termos de deslocamento terrestre.
Na mesma madrugada, drones russos atingiram outras zonas: ao menos duas pessoas morreram e sete ficaram feridas em ataques noturnos; em Zaporizhzhia, um drone atacou uma maternidade, ferindo seis pessoas — entre elas duas mulheres — e, em seguida, um segundo raid feriu uma criança. O presidente Zelensky qualificou o ataque à maternidade como um “crime emblemático” que demonstra a responsabilidade de Moscou pela escalada de violência.
No front diplomático, as negociações seguem com passos medidos e sinais contraditórios. Após alguma incerteza sobre a programação, Zelensky anunciou que as datas para os próximos encontros trilaterais foram definidas para 4 e 5 de fevereiro em Abu Dhabi. Essa declaração surge à margem de um encontro realizado na Flórida entre o enviado do Kremlin, Kirill Dmitriev, e membros da administração de Donald Trump em Miami — reunião descrita como “positiva e construtiva” pelo enviado norte‑americano Steve Witkoff. Nem o Kremlin nem a Casa Branca confirmaram oficialmente as datas divulgadas, mantendo assim uma névoa de incerteza sobre o calendário real das conversações.
Enquanto isso, a administração norte‑americana vê suas atenções divididas: a tectônica de poder do Oriente Médio, sobretudo as tensões com o Irã, pode deslocar recursos e prioridade política, relegando a urgência ucraniana para um plano secundário. No campo de batalha, por sua vez, Moscou reitera que sua “avanço” não cessa — um lembrete de que o nó central das negociações permanece o controle do território, tema sensível e repetidamente renegociado nos capítulos do plano de paz.
Do ponto de vista analítico, o episódio configura um movimento decisivo no tabuleiro: atacar linhas de transporte e infraestruturas civis é um gesto voltado a corroer a resiliência interna da Ucrânia e ampliar o custo humano e logístico de qualquer calendário de negociações. Ao mesmo tempo, a fixação de datas em Abu Dhabi representa uma tentativa de institucionalizar canais trilaterais que impliquem atores externos na gestão do conflito — uma estratégia que busca criar alicerces diplomáticos sobre os quais reconstruir um processo de paz.
Em resumo, enquanto a geografia do conflito continua a sofrer um redesenho de fronteiras invisíveis e as potências testam limites e respostas, os civis permanecem na linha de fogo. A multipolaridade das crises (Ucrânia, Irã) e a fricção entre declarações públicas e ações militares compõem um tabuleiro em que cada movimento tem impacto direto na estabilidade regional e no futuro das negociações.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica para a Espresso Italia. Observa os desenvolvimentos com lente estratégica e foco na estabilidade das relações de poder.






















