Por Marco Severini — A conservadora Laura Fernández, ex-ministra e figura de proa do atual governo, obteve uma vitória contundente nas eleições presidenciais da Costa Rica, assegurando a presidência já no primeiro turno ao superar a barreira eleitoral necessária para evitar um segundo turno. Os resultados oficiais divulgados pela Corte Suprema Eleitoral confirmam que Fernández reuniu perto de metade dos votos válidos, deixando para trás o candidato social-democrata Álvaro Ramos.
Com 39 anos, Fernández é apresentada como a sucessora política de Rodrigo Chaves, e construiu sua campanha a partir de uma plataforma centrada na segurança pública e na ordem. Seu eleitorado foi mobilizado por propostas inspiradas nas estratégias de forte mão do presidente salvadorenho Nayib Bukele, incluindo a construção de uma mega-prisão e a imposição de estado de exceção em áreas dominadas por organizações de narcotráfico. Medidas desse tipo reacendem temores entre opositores de uma concentração de poder semelhante à observada em outros pontos da região — preocupações que já geraram críticas e alertas por parte da sociedade civil e de setores jurídicos.
No palco montado em frente a um hotel em San José, diante de centenas de apoiadores, a presidente-eleita anunciou a intenção de promover um "cambio profundo e irreversível" para construir o que chamou de terceira república. Esse conceito remete a uma narrativa de ruptura institucional, distinta da chamada "segunda república" que se consolidou após a guerra civil de 1948, quando foram abolidos os militares e redigida a Constituição atual. Fernández afirmou que seu governo buscará diálogo e reconciliação com a oposição, mas não detalhou, naquele momento, a extensão das reformas constitucionais e institucionais que pretende implementar.
Entre as prioridades anunciadas durante a campanha e reiteradas no discurso de vitória estão a reforma do poder judiciário, ajustes na arquitetura do Estado e a possibilidade de emenda constitucional que permita a reeleição consecutiva — proposta que, se adiante, representaria um movimento tectônico nas regras do jogo político costarriquenho.
O reconhecimento público de Nayib Bukele veio rapidamente, com saudações à vitória de Fernández, e ilustra um redesenho de eixos de influência na região, onde uma onda de triunfos de forças conservadoras e de direita tem recalibrado alianças e estratégias. Para o eleitorado que apoiou a continuidade do atual governo, a eleição representa a confirmação de um projeto de firme combate ao crime e de centralização de decisões em torno de um executivo forte. Para adversários e analistas institucionais, a leitura é a de um tabuleiro em que os alicerces da democracia exigirão vigilância e equilíbrio de poderes.
Fernández tomará posse em 8 de maio. A vitória abre um novo capítulo na política da Costa Rica, com implicações regionais: trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro latino-americano, que poderá redefinir normas, fronteiras institucionais e os contornos da governança democrática no curto e médio prazo.
Em linguagem de diplomacia estratégica, a eleição consolida um jogador que pretende mover peças-chave do Estado — executivo, judiciário e ordenamento constitucional — para compor uma nova configuração de poder. A responsabilidade agora recai sobre os controles institucionais, a atenção da comunidade internacional e a resistência dos contrapesos internos para preservar a vitalidade democrática de um país que, historicamente, se apresentou como ancoradouro de estabilidade na região.






















