Por Erica Santini — Ciao, viajante curioso. Enquanto o Rio de Janeiro recebe um fluxo recorde de visitantes em 2025, uma mudança delicada e sensorial no roteiro turístico chama a atenção: muitos turistas estão abandonando os circuitos de luxo e procurando pelas favelas para saborear a cidade por um outro prisma — mais humano, mais próximo, mais verdadeiro.
O fenômeno não é mero acaso. Em 2025, o Rio de Janeiro acolheu 12,5 milhões de turistas, entre os quais 2,1 milhões de visitantes internacionais — um aumento de 44,8% face a 2024 — que geraram cerca de 7,8 bilhões de reais para a economia local. Com essa onda de curiosidade, comunidades antes estigmatizadas começaram a se abrir como palcos de cultura, arte urbana e hospitalidade verdadeira.
Um exemplo vivo dessa transformação é Vitor Oliveira, antigo mototaxista da Rocinha, a maior entre as favelas cariocas. Vitor percebeu o aumento de estrangeiros e se reinventou: hoje, as visitas guiadas que ele conduz pela comunidade são a sua principal fonte de rendimento. “Vir ao Rio e visitar apenas Copacabana, o Cristo e o Pão de Açúcar não é realmente visitar o Rio. É visitar o lado chique e caro do Rio. Mas a alma do Rio vem das favelas”, diz ele, com a paixão de quem conhece cada pedra do caminho.
Num final de janeiro, a Rocinha fervilhava com turistas do Chile e da França. Vitor conduziu o paraguaio Oscar Jara e o sobrinho José Martínez por miradouros com vistas que abraçam a cidade — paisagens onde a luz dourada do entardecer transforma o concreto em tela — e por espaços culturais onde a capoeira, a música e as galerias locais contam histórias com cores e ritmos.
Professora no Departamento de Turismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Caroline Martins de Melo Bottino, observa que os visitantes buscam hoje autenticidade: entender o que significa ser do Rio além do estereótipo. Com a demanda, bares com varandas e casas com terraços nasceram para acolher os turistas, oferecendo ângulos perfeitos para fotos e até captações panorâmicas com drones.
As redes sociais amplificaram esse novo olhar. Vídeos de influenciadores, como um espanhol que mostrou a Rocinha no YouTube, somaram milhares de visualizações e levaram centenas de curiosos a procurar Vitor. “É um turismo muito autêntico… não maquilhado para turistas, não encenado para mostrar algo superficial”, comenta Jara, que veio após ver um desses registros virais. Estes conteúdos ajudam a dissipar medos e estigmas, convidando ao encontro.
Além dos visitantes independentes, celebridades também atraem holofotes para essas narrativas. A artista internacional Rosalía esteve no Rio no fim de 2025 e imagens a mostram visitando a Rocinha, o que reforça ainda mais o fascínio por essa faceta mais íntima da cidade.
Para quem chega, as visitas guiadas costumam começar por mirantes que deixam o coração suspenso, seguem por ateliês e apresentações de rua, e às vezes terminam com um churrasco na varanda de uma casa — o tipo de acolhida que transforma o turista em convidado e a experiência em memória sensorial: o perfume do café, a textura do tempo nas paredes, o eco da música que atravessa vielas. Andiamo, descubra o Rio que poucos mostram — e deixe-se tocar pela hospitalidade sofisticada dessas comunidades.






















