Sou Erica Santini, e convido você a caminhar comigo por uma ilha onde a história sussurra entre pedras, vinhedos e igrejas: Chipre. O turismo religioso aqui não é apenas um produto; é uma rota sensorial pela memória do cristianismo, uma trilha onde a fé e a cultura se entrelaçam sob a luz dourada do Mediterrâneo — um verdadeiro convite ao Dolce Far Niente.
A ilha teve um papel crucial na difusão do Evangelho: foi a porta de entrada pela qual a mensagem cristã se espalhou pelo mundo. No século I, a primeira missão dos Apóstolos Paulo e Barnabé passou por estas paragens, e até hoje milhares de peregrinos — não apenas fiéis da Igreja Ortodoxa, mas visitantes de diversas denominações — viajam para Chipre para tocar, ver e ouvir a história viva presente em igrejas e mosteiros.
Na cordilheira de Troodos, dez igrejas e mosteiros foram reconhecidos como Patrimônio Mundial da Unesco desde 1985. Entre elas, na aldeia encantadora de Kalopanagiotis, ergue-se um dos complexos monásticos mais antigos e singulares da ilha: o conjunto do mosteiro de São João Lampadistis, pousado numa encosta junto ao rio Setracho, no vale de Marathasa.
Imagine três igrejas sob um único telhado de madeira — Agios Ioannis Lampadistis, Agios Heraclidios e a pequena capela latina — como camadas de tempo empilhadas, cada qual com sua paleta de cores e histórias. O conjunto, originalmente monástico, passou por várias reformas ao longo dos séculos, como quem se veste e se transforma sem perder a alma.
O pároco e guardião local, Padre Theodoros Ivana, nascido na Romênia, lembra com ternura que este é “um lugar de graça, história e cultura”, enfatizando a singularidade desse complexo triplo. A primeira igreja, dedicada a Santo Heraclídeo — um santo cipriota do século I que acompanhou os Apóstolos Paulo, Barnabé e Marcos — é uma basílica bizantina com cúpula, edificada no início do século XI durante o segundo período bizantino de Chipre. Seus afrescos, que remontam dos séculos XII ao XVI, ainda contam histórias pintadas de devoção.
Ali também sobrevive uma iconóstase rara, datada do fim do século XIII e início do XIV: a mais antiga preservada na ilha, testemunha silenciosa da antiga ordem antes do Iconoclasmo. A igreja do centro, dedicada a São João Lampadistis — que viveu no final do século XI — ganhou sua capela entre os séculos XII e XIII, mas perdeu muitos afrescos em um incêndio no início do século XVIII, lembrando-nos da fragilidade dos pigmentos frente ao tempo.
A terceira nave, conhecida como Capela Latina ou Capela do Hino Abençoado, foi acrescentada no final do século XV, já na época veneziana. Seus afrescos do início do século XVI exibem um interessante diálogo entre a tradição bizantina e influências renascentistas italo-bizantinas — um encontro visual entre mundos.
O mosteiro guarda também relíquias sagradas de São João Lampadistis, elementos que tornam o local não só um museu a céu aberto, mas um espaço de vivência espiritual. Caminhar por Kalopanagiotis é sentir o perfume da terra molhada pelo rio Setracho, escutar o eco dos sinos e perceber a textura do tempo nas paredes pintadas por gerações.
Se você busca experiências que toquem os sentidos — ouvir histórias, saborear a memória, olhar os afrescos com um olhar curioso — Chipre oferece uma jornada única. Andiamo: descubra os segredos locais, permita-se o deleite discreto de um aperitivo ao pôr do sol e deixe-se envolver pela hospitalidade sofisticada desta ilha que é um poema mediterrâneo.






















