Por Marco Severini — Em mais um movimento que redesenha, com frieza cartesiana, os contornos da diplomacia climática e da logística interna, uma nova onda de gelo e neve puniu os Estados Unidos, trazendo transtornos generalizados e ampliando as consequências de uma tempestade anterior que, uma semana atrás, já havia deixado mais de 100 mortos.
O fenômeno atingiu regiões pouco acostumadas a condições tão severas, com a coluna de mercúrio despencando para valores abaixo de zero. Autoridades descreveram a mobilidade como uma verdadeira odisseia: estradas bloqueadas, ferrovias comprometidas e um sistema aeroportuário em colapso momentâneo — peças deslocadas num tabuleiro onde as linhas de suprimento e de poder se cruzam.
Na Carolina do Norte e em estados vizinhos, fortes nevadas e ventos intensos levaram as autoridades a recomendar que os residentes não saíssem de casa. Toda a Carolina do Norte e a Carolina do Sul, além de partes da Geórgia, do Tennessee oriental, do Kentucky e da Virgínia meridional, estiveram em estado de alerta. A polícia rodoviária da Carolina do Norte registrou cerca de 750 incidentes em um único sábado.
Dados pontuais ajudam a medir a intensidade: em Faust, North Carolina, foram registrados 37 cm de neve; em West Critz, Virginia, pouco mais de 30 cm; e em Harrisburg, Tennessee, acumulou-se mais de 20 cm. Em Cape Carteret, a força dos ventos transformou a nevasca em uma cascata lateral cortante, levando o Serviço Meteorológico Nacional a qualificar as viagens como “insidiosas e potencialmente letais, especialmente se se fica preso”.
Imagens oficiais divulgadas pela polícia em Gastonia mostram a violência do encontro entre infraestrutura e intempérie: um trem colidiu em alta velocidade com um caminhão semirreboque que ficou preso nos trilhos — o veículo foi esmagado, felizmente sem vítimas fatais.
No plano aéreo, o impacto foi profundo. A tempestade forçou mais de 1.800 cancelamentos no aeroporto internacional Charlotte Douglas, um grande hub da American Airlines. Em Atlanta, o aeroporto mais movimentado do mundo, mais de 600 voos foram cancelados apenas no sábado, com cerca de 50 cancelamentos adicionais nas primeiras horas de domingo. Equipes de cerca de 300 profissionais trabalharam intensamente para desobstruir pistas, taxiways, estradas e calçadas.
O avanço da massa ártica não poupou o sul do país: a Flórida sentiu o frio de forma atípica, com temperaturas caindo abaixo de zero em áreas onde tais marcas são raras. No extremo das leituras, Dovis, West Virginia, registrou impressionantes -33 ºC.
Além do transporte, a crise repercutiu na oferta de energia. Cerca de 150 mil pessoas ficaram sem eletricidade nas primeiras horas, majoritariamente no sul dos EUA, com o Mississippi, Tennessee e Louisiana entre os estados mais afetados por apagões.
Preocupada com a segurança costeira, o National Park Service fechou campings em áreas vulneráveis das Outer Banks, por risco de danos às estruturas à beira-mar. O Serviço Meteorológico Nacional mantém alertas de neve moderada a intensa, ventos fortes e blizzard em várias regiões costeiras e interiores.
Do ponto de vista estratégico, este episódio mostra como choques climáticos podem atuar como jogadas de pressão no tabuleiro da resiliência nacional: afetam cadeias de abastecimento, mobilidade, infraestrutura crítica e respostas governamentais. A sequência de tempestades, com impacto humano e material, é um lembrete severo da necessidade de reforçar os alicerces da resiliência — tanto física quanto institucional — para enfrentar o que já se configura como uma tectônica de poder cada vez mais influenciada pelas variações extremas do clima.





















