Ciao, sou Erica Santini, e convido você a uma viagem onde se saboreia a história entre pátios sombreados e fachadas que parecem saídas de um romance. A cerca de uma hora e meia de carro, por estradas rurais sinuosas, do aeroporto mais próximo, chega-se a Kanadukathan, uma aldeia que surpreende até os viajantes bem informados.
Ao invés das casas simples que se espera encontrar no Sul da Índia, as ruas revelam-se alinhadas por quilómetros com colossais mansões históricas. Vacas pastam livremente por caminhos poeirentos, fiéis se refrescam nos tanques de templo antes das orações, e pequenas oficinas de artesãos mantêm vivas as técnicas de tecelagem e talha em madeira — um cenário sensorial onde o aroma do incenso se mistura ao pó das estradas.
Mas o que rouba o fôlego são os palacetes: construções dispostas em grelha, lado a lado, cada qual com uma personalidade própria. Há uma mistura cultural tão exuberante — balaustradas à italiana, torreões de feição castelar, colunas clássicas em mármore, pesadas portas em teca birmanesa e estatuária hindu — que a paisagem urbana parece um catálogo de gostos acumulados por gerações de comerciantes ricos.
A região conhecida como Chettinad, no estado de Tamil Nadu, não é apenas Kanadukathan: são 73 aldeias e duas vilas onde se estimam cerca de 10.000 destas residências extraordinárias. Muitas, tristemente, encontram-se abandonadas ou sem a manutenção que merecem — testemunhas de uma história de prosperidade, requinte e, depois, declínio.
Nos últimos anos, entretanto, o lugar começou a respirar de novo. O turismo aumentou à medida que hotéis foram sendo abertos em mansões restauradas, visitas guiadas surgiram e o aeroporto mais próximo ganhou melhorias. Apesar do isolamento — um voo de cerca de uma hora desde Chennai até Tiruchirappalli e depois mais uma a duas horas por estrada — a região oferece agora estadias que convidam ao dolce far niente com conforto e elegância.
O pioneiro foi o Bangala, transformado em 1999 por Meenakshi Meyyappan a partir da casa ancestral do marido. Mantendo o ambiente de lar clássico, o Bangala abriu uma porta ao visitante para viver, durante alguns dias, a intimidade de uma família com mobiliário de época, varandas sombreadas, jardins exuberantes e memórias espalhadas em fotografias a preto e branco e objetos do cotidiano.
Mais recentemente, mansões como o THE Lotus Palace, do grupo THE Park Hotels, elevaram o brilho da região: fachadas recém-pintadas em tons de vermelho, azul-real, ocre e branco; colunas jónicas que enquadram estátuas, como a vibrante figura azul do deus Krishna; e elementos ornamentais que misturam pétalas de lótus e arcos de inspiração renascentista. São cenários que pedem lentes sensíveis — e um paladar curioso para provar os sabores locais.
Visitar Chettinad é navegar por uma paleta de sensações: a textura do tempo nas paredes de terracota, o eco de passos em corredores com mosaicos, o perfume dos vinhedos e a gentileza dos anfitriões. Para quem busca experiências autênticas, há tours que explicam a história mercantil da comunidade, passeios por oficinas de artesãos e a oportunidade de dormir em casas onde o passado continua a conversar com o presente.
Se você sonha com descobertas menos óbvias e com a hospitalidade sofisticada de um lugar que guarda segredos, Chettinad e Kanadukathan são um convite irrecusável. Andiamo: deixe-se levar pela luz dourada do sul indiano, pela textura das portas em teca e pelo sussurro das histórias que essas mansões ainda têm para contar.






















