Criado há cerca de 20 anos no porão escuro do Vieux-Montréal, o estúdio Rodeo FX consolidou-se como um dos pilares da indústria de efeitos visuais. Hoje, com escritórios em Toronto, Los Angeles e Paris, a empresa compete neste ecossistema dominado por grandes conglomerados e estúdios ligados a Disney, Warner Bros., Universal e Paramount. A expansão do estúdio pode ser lida como uma camada instalacional dos alicerces digitais que sustentam produções cinematográficas contemporâneas.
Em entrevista à AFP, Ara Khanikian, supervisor executivo de efeitos visuais, lembra que “tudo começou mesmo no porão do prédio ao lado”. Essa trajetória do subterrâneo para uma presença global reflete um padrão comum nas arquiteturas de inovação: pequenas salas transformando-se em nós de uma rede maior, conectando fluxos criativos e técnicos que alimentam o sistema nervoso das cidades e das indústrias culturais.
O trabalho mais recente de destaque do estúdio envolve as temporadas 4 e 5 de Stranger Things. Para refinar a criatura conhecida como Demogorgone, o modelador 3D Philip Harris-Genois passou meses esculpindo formas e estudando anatomia comparada — incluindo referências à estrutura corporal de leões — para conferir uma postura mais ameaçadora e ágil ao monstro. Harris-Genois descreve o processo como modelar “plastilina”, camada por camada, até que a criatura ganhe presença e credibilidade na cena.
A trajetória técnica de um efeito visual passa por estágios bem definidos: conceito, modelagem, animação, simulação, iluminação e composição final. Esse fluxo de trabalho é análogo às camadas de infraestrutura urbana: cada etapa precisa estar sincronizada com a anterior para que o produto final funcione como um todo. Um exemplo prático é a sequência do confronto entre o Demogorgone e Jim Hopper (David Harbour) na temporada 4, cuja criação levou de seis meses a um ano desde a ideia inicial até o corte final — para menos de sete minutos de imagem.
Além de Stranger Things, o portfólio do estúdio inclui contribuições em Dune: Prophecy e no universo de Dune: Part Two, prêmio Oscar por melhores efeitos visuais. Para Dune: Prophecy, a equipe estudou a geografia da costa mediterrânea — vegetação, tipos de árvores e formações rochosas — para construir um palácio imperial crível, demonstrando como o trabalho de efeitos visuais exige tanto sensibilidade estética quanto rigor analítico.
Rodeo FX também esteve por trás das transições que transformaram Birdman em um aparentemente único plano-sequência, e participou de superproduções como Marvel Avengers: Doomsday e a segunda temporada de Monarch. Mais recentemente, o estúdio recebeu quatro indicações ao Visual Effects Society Awards, cujos vencedores serão anunciados em 25 de fevereiro.
O caso da Rodeo FX mostra como a infraestrutura criativa — redes de talento, ferramentas digitais e know-how técnico — funciona como uma eletricidade invisível que alimenta narrativa e credibilidade visual. Em termos práticos, o estúdio ilustra a capacidade de transformar pesquisa, anatomia e geografia em camadas de realidade virtual que o público aceita como verdade. Para quem observa a integração entre IA, modelagem e produção audiovisual na Europa e na Itália, esse tipo de operação é um indicador de maturidade do setor: as cidades e os estúdios são nós de uma mesma malha onde dados, imagem e técnica convergem.


















