Ucrânia enfrenta blackout nacional e abertura diplomática em Miami; Zelensky alerta sobre impasse territorial
Por Marco Severini — Em um cenário que mistura urgência humanitária e manobras diplomáticas, a Ucrânia luta contra a onda de frio mais severa do inverno e um colapso elétrico nacional que escancarou a fragilidade dos alicerces da infraestrutura. Com temperaturas caindo a -12°C, o apagão foi provocado pela falha simultânea de duas linhas de alta tensão, desencadeando um efeito cascata que paralisou transportes, sistemas de aquecimento e serviços essenciais — inclusive a metropolitana de Kiev. O ministro da Energia, Denys Shmyhal, confirmou que os reflexos chegaram também à Moldávia, sublinhando a delicadeza da situação apesar dos primeiros restabelecimentos.
O quadro é singular: a queda da rede ocorreu num momento em que parecia sustentada uma trégua nos ataques a instalações energéticas, mas sem qualquer redução da pressão militar russa. Na noite anterior, a Ucrânia foi alvo de 85 drones; 65 foram abatidos, mas houve danos registados em 13 localidades. Vitaly Klitschko, prefeito de Kiev, descreveu os últimos dias como entre os “mais difíceis” para a capital, agora dependente de geradores fornecidos por parceiros europeus para manter serviços mínimos.
No plano diplomático, movimentos discretos e calculados foram deslocados para Miami. O encontro entre o enviado ligado ao Kremlin, Kirill Dmitriev, e a delegação norte-americana liderada por Steve Witkoff foi qualificado por ambas as partes como “produtivo e construtivo”, embora detalhes não tenham sido divulgados. Washington declarou-se “encorajada” por sinais de abertura russos. O encontro contou ainda com figuras influentes, como Scott Bessent e Jared Kushner, demonstrando que o tabuleiro das negociações envolve atores financeiros e políticos com alcance transatlântico.
Paralelamente, aguarda-se um novo round bilateral previsto para Abu Dhabi. Contudo, o presidente Volodymyr Zelensky moderou expectativas: reconheceu avanços diplomáticos, mas enfatizou que, sem um contato direto entre os líderes, não será possível resolver as questões territoriais. “Sem diálogo direto entre chefes de Estado não haverá acordo sobre territórios”, advertiu, reiterando que a distância entre posições sobre o Donbass persiste e se mostra, por ora, intransponível.
O presidente também temescrito nas redes que, somente em janeiro, a Rússia lançou mais de 6.000 drones de ataque, cerca de 5.500 bombas aéreas guiadas e 158 mísseis de variados tipos — alvos concentrados em energia, ferrovias e infraestrutura logística que sustentam a vida civil. Na última semana, os números apontaram para mais de 980 drones, quase 1.100 bombas guiadas e dois mísseis. “Os ataques continuam. Há uma intenção clara de destruir logística e conectividade entre cidades e comunidades. É por isso que persistimos na necessidade de proteger o céu — mísseis para Patriot, sistemas NAS…”, escreveu Zelensky, delineando a prioridade estratégica de neutralizar a capacidade aérea ofensiva.
Do ponto de vista geopolítico, a convergência de um colapso interno com sinais cautelosos de abertura externa configura um momento de tectônica de poder: a Ucrânia vê-se simultaneamente exposta na linha de energia e no campo de batalha, enquanto ocorrem tentativas de redesenhar, em salas discretas, os contornos de futuras negociações. A liturgia diplomática em Miami e a expectativa por Abu Dhabi funcionam como jogadas no tabuleiro — em que a prioridade ucraniana por garantias territoriais encontra resistência e ceticismo.
Resta, então, que os aliados continuem fornecendo suporte imediato — geradores, defesa antiaérea e assistência logistíca — enquanto se aguarda se o movimento que ora se esboça em Miami transformará-se num salto estratégico que permita diálogo direto entre líderes. Sem tal salto, a dissonância entre negociações técnicas e decisões de topo tende a manter inalterados os contornos do conflito e a vulnerabilidade das populações às próximas investidas.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional na Espresso Italia.






















