Por Marco Severini — Em um movimento de contenção mas de alto simbolismo no tabuleiro regional, Israel anunciou a reabertura do ponto de passagem de Rafah, na fronteira com o Egito, permitindo o trânsito exclusivamente a residentes da Faixa de Gaza. A medida foi comunicada pelo COGAT, organismo do Ministério da Defesa israelense responsável pela coordenação dos assuntos civis nos territórios palestinos.
Segundo o comunicado oficial, a abertura se deu “em conformidade com o acordo de cessar-fogo e por diretiva do nível político” e inicia uma “fase piloto inicial”. O processo será conduzido em coordenação com a missão de assistência às fronteiras da União Europeia (EUBAM), o Egito e demais partes interessadas. Trata-se, nas palavras do anúncio, de uma reabertura limitada e monitorada, cujo propósito declarado é permitir a movimentação controlada de pessoas em ambas as direções.
O caráter experimental do procedimento foi reiterado por fontes no local: a primeira jornada seria dedicada a preparativos logísticos e acordos operacionais, com a passagem dos feridos sendo priorizada durante a abertura inicial. Fontes na fronteira informaram que, se os testes forem bem-sucedidos, a expectativa é uma operação regular a partir de segunda-feira.
Este movimento ocorre após meses de pressão das agências humanitárias, num contexto em que o posto tem sido crítico tanto para civis quanto para a entrega de ajuda. O Rafah está praticamente fechado desde maio de 2024, quando as forças israelenses assumiram o controle da travessia em meio ao conflito com o Hamas, com exceção de uma breve e restrita reabertura no início de 2025.
Persistem dúvidas operacionais e de segurança: não está claro quantas pessoas poderão atravessar diariamente, nem se todos os que desejarem retornar a Gaza receberão autorização. O aviso do COGAT esclarece que a entrada e saída serão coordenadas com o Egito, condicionadas à autorização de segurança por parte de Israel e supervisionadas pela missão da EUBAM. Em termos práticos, o movimento será calibrado pela avaliação de risco e pela capacidade logística.
O anúncio acontece em paralelo a uma nova escalada de violência nos territórios palestinos. Autoridades de proteção civil em Gaza relataram dezenas de mortos em ataques israelenses nas últimas 24 horas, o que alimenta receios de uma retomada da intensidade dos combates. Em tom lírico, mas realista, como num lance decisivo em um jogo de xadrez, a abertura de Rafah representa um gesto restrito para aliviar pressões humanitárias, sem dissolver as fricções estratégicas subjacentes.
Shurouq, Multimedia Manager de Save the Children em Gaza, comentou que as notícias recentes — incluindo a morte de crianças — sugerem o início de uma nova onda de violência e destacou a necessidade de manter a atenção sobre o sofrimento dos civis enquanto se busca impedir que crianças continuem pagando o maior preço por um conflito prolongado.
Do ponto de vista geopolítico, a reabertura parcial de Rafah emerge como um movimento calculado: atende a apelos humanitários e reduz pressões externas sobre Israel e seus parceiros, mas, ao mesmo tempo, mantém mecanismos de controle que preservam considerações de segurança. Em termos de arquitetura da estabilidade regional, é um ajuste de alicerces, não um redesenho definitivo das fronteiras invisíveis que marcam a tectônica de poder entre os atores envolvidos.






















