Por Marco Severini — Em uma declaração de tom calculado e estratégico, o presidente ucraniano Zelensky afirmou que Kiev está se preparando para uma série de reuniões diplomáticas “na próxima semana”, mantendo contato constante com a parte EUA enquanto aguarda detalhes sobre os formatos e participantes. A mensagem, transmitida com a prudência de quem desloca peças em um tabuleiro complexo, sugere cautela quanto ao encontro anunciado anteriormente em Abu Dhabi.
“Estamos em contato constante com a parte americana e aguardamos que nos forneçam detalhes sobre os próximos encontros. A Ucrânia está pronta para trabalhar em todos os formatos. É crucial que estes encontros ocorram e gerem resultados concretos. Contamos com as reuniões da próxima semana e estamos nos preparando”, declarou Zelensky.
Em contrapartida, a agência russa Tass, citando fonte própria, informou à tarde que os colóquios previstos em Abu Dhabi “não foram cancelados”, evidenciando a ambivalência das comunicações entre os atores e a persistente fragmentação das agendas diplomáticas.
No centro dos esforços de mediação estão os contatos recentes entre representantes americanos e russos na Flórida. O enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, qualificou os encontros com o representante russo Kirill Dmitriev como “produtivos e construtivos”, ressaltando a composição da delegação americana — Witkoff, o secretário do Tesouro Scott Bessent, Jared Kushner e o conselheiro da Casa Branca Josh Gruenbaum — e elogiando o papel do ex-presidente Trump como liderança determinante nas tentativas de estabilizar a situação.
Do lado russo, Dmitriev descreveu o diálogo como “construtivo para a paz” e mencionou progressos também em um grupo de trabalho econômico bilateral. No entanto, enquanto se avançam peças diplomáticas, a realidade no terreno permanece marcada por violência e danos.
Apesar do anúncio, a escalada de ataques russa continua. A retórica de trégua de 29 de janeiro — quando Trump afirmou ter convencido Vladimir Putin a suspender, por uma semana, os ataques às cidades ucranianas por razões humanitárias — foi matizada pelo Kremlin, que disse que a suspensão abrangeria apenas Kiev e venceria em 1º de fevereiro. Ademais, Moscou reconheceu que operações prosseguiram, indicando como alvos infraestruturas de transporte e depósitos de munição.
Em termos operacionais, Kiev denunciou um ataque noturno com 85 drones russos, que resultou em ao menos duas mortes e três feridos em Donetsk, nas localidades de Raygorodka e Alekseevo-Druzhkovka. As defesas ucranianas afirmam ter abatido ou neutralizado 64 desses drones — modelos Shahed, Herbera e Italmas — em várias frentes do país.
Este momento ilustra a frágil tectônica de poder em que se desenrola a guerra: enquanto se articulam diálogos e encontros que podem redesenhar fronteiras de influência invisíveis, as infraestruturas civis pagam o preço imediato. A expectativa por encontros que produzam resultados tangíveis mantém-se; contudo, a solidez desses alicerces diplomáticos ainda depende de gestos verificáveis e de uma redução concreta das hostilidades no terreno.





















