Por Chiara Lombardi — Hoje, 31 de janeiro de 2026, John Lydon, mais conhecido pelo alter ego Johnny Rotten, completa 70 anos. É um marco que não se limita ao corpo: em 2026 são meio século de carreira desde que o nome e a voz dos Sex Pistols esculpiram o perfil do punk na cultura pop. Mas o que vemos hoje é um artista que, como um filme cult revisitado, já não é apenas personagem: tornou-se um espelho do nosso tempo, cheio de contradições.
Quem espera a imagem congelada daquele jovem que berrava “Anarchy in the U.K.” ao microfone encontra um percurso multifacetado. Depois do fim dos Sex Pistols, Lydon seguiu com a banda Public Image Ltd (PIL), que continua ativa e tem show marcado no Alcatraz de Milão em 26 de maio. Paralelamente à música, Lydon dedicou-se à pintura, mostrando-se um artista total cuja obra extrapola o palco e entra na tela.
Mas a trajetória de Johnny Rotten também se lê como uma cinebiografia de provocações públicas: em 2004 participou como concorrente do programa britânico I’m a Celebrity… Get Me Out of Here!; anunciado como favorito, foi expulso em clima de escândalo após abandonar a prova e insultar o público que o mantivera na disputa. A inclinação para o reality show não terminou ali: recentemente participou da versão americana de The Masked Singer, trajado de iaque, interpretando canções inesperadas como “Physical” de Olivia Newton-John e “That’s Amore” de Dean Martin — um gesto que funciona como reframe da sua imagem, do choque à sátira.
Se no início de sua carreira Lydon encarnava uma voz radicalmente à esquerda, nos últimos anos suas posições tomaram rumos que provocam e dividem. Tornando-se cidadão americano, participou ativamente da campanha de Donald Trump em 2020, chegando a usar adereços MAGA em aparições públicas: “Estou cansado de que o mundo seja governado por políticos profissionais”, declarou. Além disso, posicionou-se contra o boicote a Israel promovido por parte da cena musical internacional e, após reaproximação com o catolicismo, manifestou opiniões conservadoras sobre família e casamento.
As tensões se estendem às relações com os antigos parceiros de banda. No ano passado, os Sex Pistols voltaram a fazer turnê com o vocalista Frank Carter; Lydon, por sua vez, acusou-os de terem sucumbido a um imaginário excessivamente woke, chegando a classificá-los como “palhaços em ação”. É o gesto final de um artista que parece querer ser, até o último ato, contra — contra expectativas, rótulos e até contra a própria posteridade.
Talvez a história de Johnny Rotten seja menos uma crônica de decadência e mais um estudo sobre como as figuras públicas envelhecem no espelho coletivo: o que foi vanguarda vira legado, depois anacronismo, e por fim espelho distorcido onde a sociedade projeta seus temores e nostalgias. Em meio a reality shows, militâncias contraditórias e pinturas, Lydon permanece um roteiro oculto da modernidade — perturbador, provocador e, acima de tudo, impossível de ser reduzido a um rótulo único.
31 de janeiro de 2026






















