Francesca Fagnani, a jornalista conhecida por sua verve investigativa e pela condução do programa Belve, volta a surpreender ao atravessar a linha que separa a entrevista do espetáculo. Na noite dedicada aos duetos de covers, marcada para sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026, ela subirá ao palco do Teatro Ariston ao lado do cantor Fulminacci para a reinterpretação de “Parole Parole”, a canção eternizada por Mina.
Não se espere um recital tradicional: a proposta tem mais a ver com o jogo do falar e do cantar — um diálogo performático onde a voz jornalística encontra a tessitura musical. É provável que a participação de Fagnani seja mais parlata do que vocal, um gesto que faz sentido para quem a conhece: sua força sempre esteve na palavra como ato público. Ainda assim, a audácia de aceitar o microfone em um palco como o do Festival revela um desejo de deslocamento que é, em si, um pequeno acontecimento cultural.
O anúncio oficial veio do apresentador Carlo Conti, que no sábado deu os nomes dos artistas que integrarão a noite dos duetos durante o telejornal TG1 das 13h30. Pouco depois, Fulminacci reforçou a novidade com uma história no Instagram: nenhuma legenda, apenas a trilha de Mina ao fundo e a pantera negra — ícone do programa Belve — sobreposta à imagem. A própria Fagnani não demorou a reagir, compartilhando o post com um enigmático “Eccoci eh”.
Para quem acompanhou Fagnani em Sanremo 2023, quando ela co-apresentou a segunda serata ao lado de Amadeus e Gianni Morandi, a imagem não é totalmente inédita. Naquela ocasião, ela usou o palco para falar de prisões e apresentar um monólogo sobre educação, responsabilidade do Estado e igualdade — temas que fizeram eco com suas investigações, especialmente as dedicadas ao carcere minorile de Nisida. A novidade agora é o cruzamento entre essa verve civicamente engajada e o gesto performativo: o jornalismo transforma-se em performance, o palco vira arena de debate e experimentação.
Há uma potência simbólica nesse encontro: a icônica “Parole Parole” é, por excelência, uma canção sobre a palavra vazia e a sedução do discurso. Convidar uma jornalista que fez da palavra seu ofício para reinterpretá-la é quase um gesto metalinguístico — um espelho do nosso tempo que nos obriga a perguntar quem fala, como e com que responsabilidade.
O dueto promete ser um dos momentos mais comentados da noite de covers, não apenas pelo ineditismo da combinação, mas pelo roteiro oculto que liga entretenimento, memória musical e responsabilidade pública. Será um pequeno reframe: aquilo que normalmente se vê como espetáculo torna-se palco para reflexão — e, por isso, merece ser acompanhado com atenção.






















