Orobie Film Festival revelou seus vencedores na tradicional cerimônia realizada na Sala Galmozzi, em Bergamo. Organizado pela Montagna Italia sob a direção artística de Roberto Gualdi, o festival consolidou-se como um espelho do nosso tempo, onde o cinema e as imagens documentam não apenas paisagens, mas também memórias coletivas e narrativas de transformação.
No palco literário, o Prêmio Walter Bonatti – Racconti di montagna foi conquistado por Il più nobile scoglio d’Europa, de Enrica Tais. A nota da júri ressaltou que “a solidez da documentação histórica permite à voz narrativa restituir a atmosfera de uma época, a essência do grande relato coletivo do alpinismo oitocentista e a verdade íntima de um desejo que não conhece fronteiras geográficas nem convenções sociais”. O texto de Tais entrelaça o tema da emancipação feminina ao percurso heroico do alpinismo, mostrando como um sonho insiste em se tornar experiência apesar das limitações do contexto.
Em segundo lugar ficou Il pomodoro blu, de Juri Secli, e na terceira posição Maria e la montagna, de Nerio Vespertin. A lista evidencia o fio narrativo que percorre o festival: montanha como metáfora de superação e também como território de memória coletiva — o roteiro oculto que nos conta quem fomos e quem aspiramos ser.
No campo da imagem fixa, o concurso Off – Premio Provincia di Bergamo premiou a fotografia Sospesi oltre le nubi, de Mauro Lanfranchi. O registro captura o instante em que dois alpinistas, além das nuvens, avançam rumo ao cume após uma escalada extenuante — uma imagem que funciona como uma semiótica do viral do esforço humano. A foto mais votada pelo público foi Bacche cesene e mille fiocchi di neve, de Massimiliano Manuel Paolino, síntese sensorial da paisagem invernal.
No concurso cinematográfico, o Prêmio especial da giuria organizzativa – Miglior reportage televisivo foi para a Mediaset, com K2 La gloria e il segreto, de Gianluca Mazzini e Fabrizio Boni. A obra renova a tradição do reportage de montanha, combinando investigação e empatia. Houve ainda menção da júri e o Premio Università degli Studi di Bergamo para Solidi, de Chiara Guglielmina, filmado no Nepal, que traz à tona o entrelaçar de cultura, risco e solidariedade em terrenos altos.
A seção Orobie e Montagne di Lombardia – Premio Fondazione Riccardo Cassin consagrou Ho cambiato passo, de Andrea Cristini, Elena Maggioni e Ramona Mismetti, uma obra sensível sobre como deficiências físicas não apagam o entusiasmo e a vontade de viver — um reframe da realidade que desafia preconceitos e celebra adaptações criativas.
Em Paesaggi d’Italia – Premio Bim Bergamo, venceu Walter Bonatti a Bardonecchia, de Riccardo Topazio, acompanhado por crônicas alpinísticas da época, enquanto na categoria Terre Alte del mondo – Premio Comune di Seriate o prêmio foi para Odyssea borealis, de Alessandro Beltrame, que narra uma expedição na Groenlândia.
O resultado do festival confirma uma tendência: a montanha, vista através de lentes e páginas, permanece um palco onde se encenam questões contemporâneas — da emancipação ao confronto com limites físicos e ambientais. Como observadora cultural, vejo nesses vencedores um mapa sentimental e crítico, um convite a olhar além do pico e entender a montanha como cenário de transformação e espelho social.
Data do evento: 31 de janeiro de 2026. Organização: Montagna Italia. Local: Sala Galmozzi, Bergamo.





















