Teerã anunciou uma resposta dura à recente decisão da União Europeia de classificar o Corpo das Guardiãs da Revolução Islâmica (IRGC) como organização terrorista. Em um movimento que redesenha, em termos simbólicos, o tabuleiro diplomático, o Irã declarou a inscrição das forças armadas do Reino Unido, da França e da Alemanha na sua lista nacional de “organizações terroristas”, ao lado de grupos como ISIS, Al-Qaeda e o IDF (Forças de Defesa de Israel).
A medida foi comunicada publicamente por Ali Larijani, alto responsável de segurança iraniano, em uma publicação na plataforma X. O anúncio, apoiado pelo Estado‑Maior das Forças Armadas e pelo Ministério das Relações Exteriores do Irã, foi descrito como uma retaliação direta à decisão plenária dos ministros dos Negócios Estrangeiros da UE, tomada após semanas de debate e formalizada por unanimidade.
Do ponto de vista de Teerã, a decisão europeia contra o IRGC é fruto de um alinhamento “produtivamente pró‑estadunidense e pró‑israelense”, segundo comunicação oficial, e acarretará “consequências” políticas dirigidas aos representantes do bloco comunitário. O tom é de ruptura calculada: não se trata apenas de uma declaração retórica, mas de um reposicionamento que pode alterar alicerces frágeis da diplomacia regional.
Bruxelas justificou a inclusão do Corpo das Guardiãs da Revolução na lista negra pela repressão violenta das manifestações internas no Irã. Autoridades da UE, entre elas a Alta Representante para os Negócios Estrangeiros, Kaja Kallas, sustentaram que um regime que reprime seus cidadãos de forma sangrenta deve ser tratado como terrorista. Fontes de direitos humanos apontam para milhares de mortos durante as revoltas; números oficiais iranianos falam de cerca de 3.000 vítimas — um exemplo das narrativas concorrentes que alimentam a tectônica de poder entre Teerã e o Ocidente.
Para o Estado‑Maior iraniano, a iniciativa europeia não é neutra: representa um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico, que deverá provocar respostas calculadas. O receio de escalada permanece elevado, especialmente considerando a já tensa relação com os Estados Unidos e o contínuo apoio ocidental a Tel Aviv em vários foros.
Do lado europeu, políticos como Lorenzo Tajani manifestaram que a inclusão dos Guardiões da Revolução na lista era um caminho político plausível e esperado. A convocação da embaixadora italiana em Teerã e a troca de notas diplomáticas mostram que as peças começam a se mover em ambos os tabuleiros: o diplomático e o estratégico.
Analiticamente, este episódio deve ser lido como parte de um padrão mais amplo de redimensionamento de eixos de influência. Ao posar as forças de três Estados europeus na mesma categoria que organizações jihadistas e militares de Israel, Teerã busca criar equivalências simbólicas que desafiam a narrativa ocidental e procuram reforçar sua própria posição no jogo regional.
As próximas semanas serão cruciais para avaliar se a medida iraniana permanecerá no plano retórico ou se transitará para ações concretas — políticas, econômicas ou operacionais — que possam reconfigurar a delicada arquitetura das relações entre o Irã e o Ocidente. Como numa partida de xadrez, cada movimento terá consequências sobre a manobra seguinte; a estabilidade regional depende agora da contenção e da habilidade dos atores em evitar erros estratégicos.
Marco Severini — Espresso Italia. Análise diplomática e estratégica.






















